Carlos Novaes, 23 de setembro de 2026
com acréscimo, às 18:40h, em Fica o Registro
Depois de, em 2022, terem conseguido uma maioria eleitoral residual e frágil com a proposta conservadora de voltar à política do passado, em 2026, Lula, o PT e seus aliados dobram a aposta em uma opção conservadora, não motivam ninguém além dos diretamente interessados nos vínculos com o Estado, e deixam a maioria que anseia por uma alternativa inovadora com a certeza de que, se Lula ganhar, será ruim; se Lula perder, será trágico.
O cerne desse conservadorismo, dessa afeição pelo Estado de Direito Autoritário que nos infelicita, aparece no inabalável compromisso com a defesa: eles se apresentam na defesa das instituições, na defesa do governo, na defesa da democracia, na defesa das mulheres, na defesa das periferias, na defesa do Brasil, na defesa do SUS, na defesa da política profissional (deixo ao leitor continuar a lista). Empacados nesse grau zero de imaginação política, o máximo que nos propõem é, literalmente, mais do mesmo.
Essa limitação defensiva se consolidou em versão especialmente contraproducente para 2026 porque foi atada a uma limitação bem mais antiga, essa propriamente lulopetista: a quimera de que Lula na presidência da República é o máximo a que o Brasil pode aspirar. Da junção dessas duas limitações saiu o que estamos assistindo por todo o país: os candidatos da autointitulada esquerda ou do chamado campo progressista se apresentam não para realizar isso ou aquilo, mas como candidatos do Lula na defesa da sua permanência no cargo.
Além de ruim do ponto de vista político mais geral, essa limitação é eleitoralmente perigosa porque solapa um aspecto fundamental da combinação entre, de um lado, eleição para o Executivo disputada em dois turnos e, de outro lado, eleição para o Legislativo disputada em apenas um turno: a migração de votos do primeiro para o segundo turno. É que enquanto os candidatos ao Executivo têm uma segunda oportunidade, os candidatos ao Legislativo têm apenas uma oportunidade de buscar a vitória. Como a vitória depende do número de eleitores que o candidato consegue persuadir, ele deve ir a campo da forma mais livre e inventiva possível, propondo o diálogo com todo tipo de eleitor, atento a toda peculiaridade social, local etc.
A exigência de defender em primeiro lugar a reeleição de Lula limita e até substitui o repertório que permitiria a um candidato a Deputado Federal, p. ex., persuadir para votar em si o eleitor indeciso, ou mesmo o eleitor não convicto de uma candidatura concorrente. Ao invés de explorar o que interessa ao eleitor, o candidato começa por defender o que interessa a ele próprio, mas necessariamente não está entre as prioridades do eleitor que, ao ouvi-lo, se decepciona. Com isso, nosso Federal hipotético deixa de ganhar um voto, perde tração que poderia estar a ganhar e solapa as possibilidades de Lula ampliar seu eleitorado. Explico o porquê:
Cabe aos candidatos ao Legislativo dar capilaridade à campanha, especialmente numa disputa eleitoral polarizada como a atual. São eles, em seu corpo-a-corpo propriamente local, que podem sensibilizar o eleitorado independentemente da preferência majoritária, valorizando aquilo que importa diretamente a cada eleitor ou a grupos de eleitores (os assim chamados públicos-alvo, que requerem as mais variadas e engenhosas propostas específicas). É em razão dessa variedade que muito raramente o vitorioso para o Executivo obtém maioria no Legislativo: como o eleitor arruma o próprio voto segundo preferências idiossincráticas, vence para o Legislativo o candidato que melhor explore essas inclinações não lineares — em sua unilateralidade rígida, os chamados progressistas ainda facilitam o caminho para os que simplesmente compram o voto.
Nessa linha de raciocínio fica fácil perceber que todo sucesso individual vindo da pluralidade na disputa pelo Legislativo favorece o candidato ao Executivo, especialmente quando a disputa majoritária se dá em dois turnos: o candidato vitorioso para o Legislativo teve êxito porque, dispondo de apenas um turno, inteligentemente ampliou o leque eleitoral da campanha e, assim, participará do segundo turno com muito mais possibilidades de persuadir mais eleitores a votar, no nosso caso, em Lula. Quer dizer, com o foco no eleitor ele driblou o estorvo que Lula poderia representar no primeiro turno e chega ao segundo turno podendo, agora sim, dispondo do apelo natural de todo vencedor, ajudar Lula a receber o voto de recalcitrantes e, até, de não simpatizantes — esse é o verdadeiro foco em Lula.
Mas, com raras exceções, os candidatos lulopetistas ao Legislativo estão fazendo exatamente o contrário: esquecidos do eleitor, carregam Lula como uma bola de ferro atada ao pescoço e têm a reeleição dele como proposta principal, quando não única… Não ampliam as possibilidades da campanha e se limitam a disputar uns contra os outros os votos do eleitorado do próprio campo. Atrapalham a si mesmos, pouco servem a Lula, nada entregam ao eleitor.
As campanhas para governador sofrem do mesmo mal, o que tornou calamitosa a disputa majoritária no mais rico e mais populoso estado do país. Ao, literalmente, forçar uma configuração de candidaturas majoritárias que, erroneamente, julgou conveniente para si, Lula destruiu qualquer possibilidade de êxito em SP. Como é de conhecimento público que foi obrigado a disputar um cargo que não queria, Haddad é visto por qualquer eleitor paulista não como candidato a governador de São Paulo, mas como o candidato empurrado para ajudar Lula — isso não só é ruim para Lula, como é mortal inclusive para o futuro de Haddad, pois essa obediência não apenas comprometeu o vínculo dele com o eleitor, mas também destruiu a última chance de, ao se livrar da condição de pupilo preferido, ele aparecer como um político com personalidade própria, capaz de atuar com independência.
Removido da disputa para o Senado, onde teria tido papel muito mais produtivo, Haddad foi substituído justamente por quem (como argumentei aqui) teria sido a candidata ideal para governador: Simone Tebet. A dupla que Tebet está a fazer com Marina Silva tem muito menos potência do que teria a dupla Haddad-Marina, entre outras coisas porque elas acabam por tirar potência do fator mulher, justamente porque roubam uma à outra enquanto, monotonamente, se repetem em torno dele e facilitam o trabalho sujo dos adversários. Tebet como candidata a governadora teria, inclusive, protegido ambas as candidatas da pecha (idiota, mas danosa) de “forasteiras”. Infelizmente, tudo errado em SP.
Fica o Registro:
– Marília Campos, excelente candidata do PT ao Senado por Minas Gerais, recusou a imposição pretendida por Lula e não trocou sua desejada candidatura ao Senado pela disputa a Governador, como queria o caudilho. Não deve ter escapado ao eleitor essa determinação em servi-lo em seus próprios termos. Ela está em primeiro lugar para o Senado e, ainda por cima, o candidato a governador, Patrus Ananias, está crescendo na preferência popular.
18:40h:
– Veja bem, leitor: essas imposições caudilhistas do Lula vêm no rastro de comportamento antigo dele, que sempre se empenhou em impedir a projeção de nomes novos, seja no sindicalismo, seja no PT, seja na autointitulada esquerda em geral. Como há quase duas décadas analisei detalhadamente aqui, depois de neutralizar Zé Dirceu com ajuda do mensalão, de escantear talentos como Tarso Genro, José Genoíno, Luiza Erundina, Olívio Dutra, Vicentinho, Aloisio Mercadante e outros, Lula escolheu a politicamente inepta Dilma para sucede-lo (com as consequência previstas) e, assim, matou as possibilidades de uma renovação geracional no PT e na esquerda, pois aqueles nomes preteridos, além de não legarem sucessores para a luta, serviram de advertência a quem se atrevesse a pôr a cabeça para fora — o PT sempre premiou a obediência. Por isso, desde sempre os políticos mais jovens que se destacam na autointitulada esquerda, ou morrem na praia, ou viram fantoches sem vigor próprio, como aconteceu com Haddad e com Boulos. Depois de ajudar a reduzir o PT à condição de instrumento de uma única geração, Lula acabou com ele tornando-o ferramenta de uso pessoal.