BOLSONARO RECAPTUROU O SENTIMENTO ANTISSISTEMA

Carlos Novaes, 08 de outubro de 2022

Tenho discutido neste blog e no canal do YouTube, Lavoura Política, que o sentimento antissistema é majoritário na sociedade brasileira. Esse sentimento nada mais é do que o modo como as pessoas manifestam a, dão expressão à, crise de legitimação do Estado de Direito AutoritárioEDA. O EDA tem dificuldades cada vez maiores para ser percebido como legítimo pela maioria da população, que dá corpo à sua revolta “sentindo” que o sistema não presta. Quer dizer, o conceito crise de legitimação é uma construção intelectual para apreender teoricamente o que se passa; o sentimento antissistema é o que se passa, é o modo como as pessoas traduzem na realidade a sua revolta.

O conceito tenta agarrar a realidade complexa; o sentimento expressa essa complexidade em si mesmo. O conceito vem depois do sentimento. O sentimento reúne todas as motivações particulares, pois, em última instância, cada pessoa está revoltada com o EDA por suas próprias razões; o conceito desconsidera o que é particular para entender o sentido político final do que se passa.

Toda eleição tem algum hipotético caminho real que conduz à vitória mas, como tal caminho é difícil de encontrar, raramente ele é trilhado por algum dos candidatos. Como em toda disputa acaba por haver um vencedor, quem erra menos acaba por vencer, ainda que ninguém tenha trilhado o caminho real. Em outras palavras, frequentemente o vencedor é aquele que, sem ter enxergado o caminho da vitória, acabou por fazer a campanha que menos se afastou dele.

Como vimos aqui, desde pelo menos 2018 está claro que o sentimento antissistema é majoritário no eleitorado brasileiro. Como a maioria de nós também prefere a democracia a qualquer outra forma de governo, não é difícil chegar à constatação propriamente intelectual de que o caminho de saída da crise de legitimação é a reunião do sentimento antissistema com a preferência pela democracia. Quer dizer, precisamos de uma força que nos proponha ir além do EDA, de uma força que construa esse caminho da única forma que ele pode ser construído: consolidar a democracia fazendo uso dos materiais que a maioria da sociedade oferece. Esses materiais são feitos de insatisfações e aspirações. As insatisfações da maioria de nós resultam da desigualdade, tomada em sentido amplo, o que resulta na aspiração pelo enfrentamento de duas urgências: a urgência social e a urgência por ordem, como já vimos aqui.

Se em 2022 o caminho para a vitória eleitoral é ir além do EDA, desde o início ficou claro que nenhum candidato (ou candidata) à presidência da República estava em condições de desempenhar o papel: ninguém concatenou a grande novidade de reunir a preferência pela democracia com a aversão ao “sistema”. Não tendo sido desafiado pela novidade para a qual estava pronto, o eleitorado foi tangido para a polarização óbvia, embora ela não traduza suas necessidades e expectativas.

Ainda que com graus diferentes de informação e clareza, o fato é que para a maioria dos eleitores a democracia brasileira não está ameaçada — essa não é a questão. Não obstante, Bolsonaro vocifera seus blefes contra a democracia para parecer antissistema; já Lula diz defender a democracia enquanto, na verdade, saiba ou não o alcance disso, defende o sistema (EDA). A polarização Lula-Bolsonaro levou a maioria da sociedade brasileira a cindir a sua preferência de base em duas metades contrapostas de modo improdutivo e desorientador: ou bem reafirma sua preferência pela democracia; ou bem dá vazão ao sentimento antissistema. O vencedor sairá das incertezas próprias de uma desorientação como essa.

Os números de Bolsonaro nas pesquisas realizadas no curso do primeiro turno indicavam alta rejeição (resultada do governo dele com o Centrão) e intenções de voto que, embora robustas, eram insuficientes para fazer maioria mesmo num hipotético segundo turno. Quer dizer, o campeão supostamente antissistema parecia ter perdido as condições que lhe haviam levado à vitória em 2018. Por outro lado, Lula logrou fazer da sua campanha uma “frente” pela democracia e, embora insistindo num passado questionável sem descortinar nenhum futuro, parecia caminhar ou para uma vitória já no primeiro turno, ou para um triunfo no segundo. Quer dizer, o injustiçado de 2018 parecia ter conseguido se transformar no campeão da democracia.

Infelizmente, porém, nas últimas horas do primeiro turno, longe da percepção das pesquisas, houve um realinhamento das sempre complexas motivações para o voto, pois o resultado eleitoral indica que o sentimento antissistema ganhou impulso e, apesar de tudo, Bolsonaro foi favorecido por ele — a maior evidência disso foi o inesperado primeiro lugar de Tarcísio em SP, afinal, ao votar nele os paulistas nada mais fizeram do que preferir o “forasteiro” ao “sistema” (nem PSDB, nem PT, imagem que os adversários ajudaram a construir com sua xenofobia despolitizada). Quer dizer, ainda antes do final da eleição Lula parece ter começado a pagar o preço de ter feito da sua campanha uma fotografia até literal do “sistema” — o que, além de favorecer o adversário diretamente, pode até ter desmotivado eleitores do próprio Lula a irem votar…

As primeiras pesquisas deste segundo turno indicam que, até aqui, essa tendência não se alterou, com Bolsonaro se apresentando perigosamente competitivo, no que está sendo ajudado pela autointitulada esquerda e pelos progressistas, que insistem em demonizá-lo como a besta-fera da democracia, enquanto o ajudam a difundir a falsa imagem de cavaleiro antissistema, que ele vem explorando ao antecipar nefastas alterações no STF (uma válvula central no funcionamento do coração do sistema, como a autointitulada esquerda sempre soube, mas resolveu “esquecer”…). Assumindo para si uma suposta “norma civilizada”, nossos bem pensantes destacam em Bolsonaro justamente o comportamento desviante, contribuindo para a ideia de que ele se contrapõe ao estabelecido e, ainda por cima, reproduzindo preconceitos (síndrome de Janones) que afastam gente séria e, assim, solapam a potência de um discurso comum. Vem dando errado…

Lula, por sua vez, voltado para o passado, enredado em compromissos com as facções do EDA — na esteira da aliança com Alckmin (metáfora do que deveria ter feito há trinta anos) –, traz em seu apoio, neste segundo turno, não menos tardiamente, os ex-formuladores e ex-implementadores do Plano Real. Tenham os méritos que tenham, o fato é que, nas atuais circunstâncias, esses apoios completam a foto do anacronismo que exploramos detalhadamente aqui, e o sistema aparece em todo o seu desenho contraproducente: FHC, Arida, Lara Rezende, Bacha, Malan e Armínio — SP já mostrou estar a repelir isso.

Tenham ou não consciência disso, os estrategistas das campanhas estão arrastando o eleitor que quer mudança a decidir entre, pelo lado de Lula, a volta a um passado controverso para, no máximo, tomar fôlego para mudanças posteriores (adiamento); ou, pelo lado de Bolsonaro, correr os riscos de insistir no imediatismo de uma reacionária via turbulenta de desarranjo da ordem que infelicita a maioria (“botar prá quebrar”) — por mimetizar o desespero do eleitor, o comportamento “desesperado” de Bolsonaro pode funcionar, especialmente quando contraposto à falta de uma visão de futuro no projeto de Lula.

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