A VOZ (ventríloqua) DAS RUAS

Carlos Novaes, 06 de agosto de 2015

A re-prisão de um Dirceu que já estava preso aumentou a certeza sobrenadante de que falta “alguém” e, desafortunadamente para Dilma, ela se tornou a candidata “natural” a preencher a lacuna. Afinal, ao invés de se dar ao trabalho de enxergar esse “alguém” faltante na nossa própria ordem política profissional enquanto ela mesma (por mais evidente que isso esteja, pois os maiores adversários da nossa lastimável presidenta são muuuiiito piores do que ela) a opinião pública prefere o caminho cômodo para si, e vantajoso para os oportunistas, de concentrar na figura mais frágil e merecidamente desmoralizada toda a sua ira preguiçosa. A pesquisa DataFolha de hoje é clara: a opinião pública afunilou em Dilma toda a repulsa que nutre pelo sistema político corrupto que nos infelicita. Há uma onda contrária ao governo que é justa, mas que abriga a inconsistência que provavelmente determinará seu breve e curto espraiamento, pois Dilma está a pagar não só pelos erros (muitos) que cometeu, mas por simplesmente tudo. É a colheita do PT por ter fraudado as bandeiras que até hoje insiste fingir que ainda defende. Infelizmente, o impeachment dela, se ocorrer, não será uma oportunidade para a mudança, mas uma gigantesca válvula para dissipar a pressão a que, de certo modo, toda a ordem política profissional está submetida. Esse desfecho político fajuto de uma crise econômica verdadeira provocará na população uma euforia imatura, num desperdício de energia que será captado pelos espertalhões para que tudo fique como está – ou pior.

Digo pior porque os que estão a tramar a queda de Dilma irão fazer um ajuste ainda mais duro do que este que ela vem tentando levar a cabo contra a cínica sabotagem deles, e tudo revestido do manto (e do mando) da necessidade, pois sempre poderão invocar a herança maldita recebida – levará ainda muito tempo para que a opinião pública entenda que nossos políticos profissionais não tem como deixar herança bendita. Digo pior porque na esteira da desmoralização do PT também foram desmoralizadas muitas das ideias e propostas justas que ele fingia defender, o que abrirá caminho para que, de posse da presidência via impeachment, as forças reacionárias imponham ao Brasil um retrocesso legal para aquém dos tímidos avanços obtidos com a Constituinte. Digo pior porque revestidos da autoridade da presidência num país em convulsão sofrida, os agentes das práticas nefastas irão ter oportunidades novas para continuar a agir contra o interesse público e contra os mais fracos. Se Dilma cair, iremos viver tempos sombrios, leitor.

É por enxergar os danos presentes e futuros da insânia e da sanha reinantes que Fernando Henrique tem sido cauteloso, pois ele, não sendo um Aécio, olha para além dos ganhos imediatos que uma situação política conturbada desprovida de viés transformador pode trazer. Tendo falseado uma discordância em torno daquilo que na verdade os unia, PT e PSDB jogaram o país numa teatralização macabra. Cada um teve de ir buscar nos porões da ditadura forças auxiliares para levar a farsa adiante, numa encenação que aos poucos vai se revelando trágica para o nosso futuro, pois o pacto do Real se desfaz por todas as costuras. Sim, leitor, não há alternativa auspiciosa na desordem atual; e isso ocorre porque essa é uma desordem que nasce de um desmoronamento, não de uma disputa entre projetos alternativos que estivessem disputando o seu, o meu, o nosso engajamento lúcido. Não. O que está a desmoronar é o arranjo frágil que os tucanos puseram de pé há pouco mais de vinte anos, ao qual o PT aderiu faz pouco mais de dez, mas sem que ambos tivessem tirado consequência prática auspiciosa dessa convergência. A árvore da nossa ordem política profissional está caindo de podre aos nossos olhos, mas a opinião pública é levada a se comportar como se tivesse encontrado um fruto podre na cesta. E quem maneja o boneco se ri.

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