PUTIN E BOLSONARO; LULA-ALCKMIN — E CIRO

Carlos Novaes, 18 de março de 2022

Título alterado e com acréscimos em PUTIN e em A DANÇA DAS FACÇÕES, em 20, 21 e 22/03

PUTIN

Putin governa a Rússia com mão de ferro; Putin controla toda a mídia impressa, radiofônica e audiovisual da Rússia, não havendo nenhuma voz dissonante, não admitindo nenhuma crítica pública ao modo como ele e as facções que o apoiam conduzem o país; Putin mantém sob estrito controle as redes sociais, tendo desenvolvido suas próprias redes, todas ocupadas em distribuir fake news que lhe são favoráveis; Putin prega a destruição pura e simples dos adversários e, dispondo do poder necessário, atua nesse sentido; Putin favorece os amigos na rentável exploração mineral e lenhosa da remota Sibéria, da qual se beneficia pessoalmente e segundo opressão histórica contra povos locais; Putin apoia seu poder em facções estatais burocráticas oriundas da ditadura anterior, tendo somado a elas militares das FFAA da Rússia, aos quais compensa com verbas propriamente bélicas e privilégios pessoais.

Convido o leitor ao seguinte exercício: releia o parágrafo acima substituindo os vocábulos Putin, Rússia e Sibéria por, respectivamente, Bolsonaro, Brasil e Amazônia. Quer dizer, Putin é o Bolsonaro que realizou as próprias fantasias!! Ou, em outras palavras, Putin representa para a Rússia o que não queremos que Bolsonaro se torne no Brasil.

Não obstante, parcela considerável da nossa autointitulada esquerda “frentista”, que bate no peito a se proclamar oposição a Bolsonaro, está (tal como Bolsonaro) a apoiar Putin na guerra fascista contra a Ucrânia!! Uma mixórdia mental dessas só se explica pela ação isolada ou combinada de três motivações: negócios; cegueira ideológica provocada pela mistura de antiamericanismo tolo e saudades da extinta URSS; ou mera burrice, mesmo.

20/03 – O apoio de Bolsonaro a Putin na Ucrânia deve ser visto justamente da perspectiva de suas fantasias de virar o Putin do Brasil. Como já explorei aqui, em sua errância, Bolsonaro emaranha três objetivos: tornar-se um ditador; vencer a reeleição; salvar a si e aos seus da cadeia. Mesmo em cálculos fantasistas, o primeiro objetivo depende, agora, do segundo, e aqui entra o apoio a Putin: Bolsonaro quer atenção especial por parte do russo na oferta de tecnologia para semear fake news e tumultos no curso da disputa eleitoral. Outra coisa: Bolsonaro não tem condições de se tornar o Putin do Brasil por duas razões: (i) diferentemente da Rússia, a maioria da sociedade brasileira prefere a democracia e (ii) em profundo contraste com a ordem estatal russa, um ditador não interessa às facções estatais do Brasil que têm no Estado de Direito AutoritárioEDA (com suas franquias democrático-eleitorais) os meios para o exercício faccioso dos poderes institucionais que tantos ganhos lhes permitem.

22/03 – O texto do governo Bolsonaro para comemorar a independência do Brasil é uma interpretação tola daquele fato histórico no intuito de não menos tolamente rebaixá-lo a serviço do papel de “homem providencial” que Bolsonaro pretende nos impingir no Brasil atual:

“Um jovem príncipe, do alto de seu cavalo, ergueu sua espada. Refletindo nela a luz do sol, ao som das águas do Ipiranga, ecoou a voz em forte grito. Pela força de sua coragem, derrotou os que nos aprisionavam. Com a ousadia de sua afronta, fez soberana a nossa nação”.

O ridículo do voluntarismo golpista não cessa: ao falar em “afronta” do tal príncipe, essa gente imagina revestir de legitimidade histórica até os maus modos do chefe…

GUERRA NA UCRÂNIA

Putin começa a se queixar de que o governo da Ucrânia põe dificuldades para que se alcance um cessar-fogo… Ele anseia por uma saída (parece o Nicolau-I na malfadada guerra da Criméia*, ainda que Putin esteja em situação melhor, pois os adversários mais fortes não iniciaram ações bélicas, como fizeram contra Nicolau). A situação se revela cada vez mais difícil para o déspota russo, que foi surpreendido pelos desdobramentos inesperados (o que é próprio de guerras, aliás).

A essa altura, entendo que o melhor caminho para a Ucrânia seria fazer os seguintes movimentos:

  1. Aceitar a imposição de não entrar na OTAN, o pretexto de Putin para fazer essa guerra de expansão. Seria uma humilhação aceitável, uma vez que o país está sofrendo guerra de um inimigo ao qual não pode vencer no âmbito militar. Ademais, a OTAN é um organismo que, para a Ucrânia, já não tem importância: no cenário atual, a OTAN não vai ajudar militarmente o país; num cenário futuro, dada justamente a experiência atual, os países da OTAN terão aprendido os custos de sua omissão e não deixarão outra vez a Ucrânia no desamparo diante da Rússia.
  2. Aceitar a perda da Criméia ocupada desde 2014 por Putin. Além de a Ucrânia não ter força para retomar essa pequena parte de seu imenso território, essa parcela da Criméia esteve sob domínio russo intermitente por séculos, tendo sido travadas ali batalhas épicas, que fazem parte até do folclore e do cancioneiro popular russos — tanto que a população local, toda ela praticamente russa, gosta de ser parte da Rússia.
  3. Não abrir mão de entrar na União Europeia.
  4. Exigir a retirada total das tropas russas e não arredar pé da sua soberania intacta e integral sobre os territórios rebeldes a leste, com a Ucrânia podendo decidir soberanamente sobre o destino que dará aos rebeldes.
  5. Com apoio no bloqueio internacional, exigir reparações de guerra da Rússia, que poderiam vir, inclusive, de acertos sobre o preço do pedágio para o gás russo que passa pela Ucrânia para chegar à Europa do Mercado Comum.

Um acordo de paz nesses termos permitiria a continuidade da vida independente da Ucrânia, daria alguma ração para que Putin, com suas redes despóticas de mentiras, possa cantar vitória internamente; e ofereceria aos demais países as razões necessárias ao levantamento dos embargos contra a Rússia, que não interessam nem a eles nem a Putin.

22/03 – Para ter uma excelente visão geral do que se passa entre Rússia e Ucrânia, leia este texto: Guerra na Ucrânia: como Vladimir Putin redesenhou o mundo – mas não do jeito que queria…

A DANÇA DAS FACÇÕES

Alckmin anunciou sua filiação ao PSB, tornando mais crível a formação da chapa presidencial com Lula (impertinentemente chamada de “geringonça brasileira”). Já apontei o erro que Lula está a cometer, cabendo acrescentar apenas que um inexpressivo ex-presidente do PT, Rui Falcão, vinha liderando um movimento contra essa aliança com base em fantasias de espertalhão: fantasias porque faz décadas que não há diferença entre PT e PSDB (tanto que este desapareceu e aliar-se ao PT virou destino para gente como Alckmin…). Espertalhão porque Falcão mantém no armário essa batina de autointitulado esquerdista para tirá-la do cabide sempre que entende que envergá-la vai lhe trazer alguma vantagem — foi assim quando ele impediu a ex-prefeita Marta Suplicy de negociar a vaga de vice-prefeito com Quércia em 2004, para que ele próprio, Falcão, fosse o candidato a vice na chapa da reeleição. Resultado: Marta perdeu a eleição e Falcão a boquinha de ser prefeito de São Paulo sem ter tido um voto: é que ele contava empurrar Marta para uma candidatura ao governo do Estado no meio do mandato… Esse pessoal pensa que todo mundo esquece as histórias…

O União Brasil, essa reunião facciosa de herdeiros e desgarrados dos dispositivos paisanos da ditadura, pretende ser o estuário da tal “terceira via”. A coisa toda é tão facciosa que eles cogitam atrair o desorientado Ciro Gomes para o ajuntamento conservador. Esse pessoal não entende, Ciro inclusive, que a polarização fajuta entre Lula e Bolsonaro jamais será desfeita com outra candidatura saída do sistema em que Lula e Bolsonaro se medem. Uma alternativa aos dois só poderá ser construída se ganhar o perfil de um movimento, seja ele uma autêntica via de transformação (quase impossível hoje), ou um mero arranjo ilusionista (sempre possível no Brasil). Para transformar, tem de colocar no centro a luta contra a desigualdade; para iludir basta explorar a rejeição de Bolsonaro pela maioria e o fato de que uma outra maioria só vota em Lula porque não vê opção. Quando se põe em perspectiva que a eleição é em dois turnos, ou seja, que o vencedor tem de fazer maioria absoluta, Bolsonaro tem pouco voto e muito ódio contra; Lula tem muito voto, mas o entusiasmo de poucos. Eduardo Leite continua no páreo porque a realidade sempre se impõe: tal como já discuti aqui, ele se mostra o único que pode virar a bola da vez.

21/03 – Seguindo em sua marcha degradante, Fernando Haddad se exibe mais realista do que o rei na dança das facções. Não contente em padecer da estreiteza criativa que caracteriza todo faccioso, ele faz dessa estreiteza um estandarte e, inebriado pelo que julga ser o sucesso, pretende receber louros por isso: desdenhando a dinâmica autônoma da sociedade, deixando claro que nada espera além do mingau que as facções têm a oferecer, Haddad vai além de Lula ao defender desde já apoio à candidatura de Boulos à prefeitura de SP em 2024!! Eis uma barganha estapafurdiamente facciosa, como se tudo estivesse previsto até lá, como se o país estivesse proibido de encontrar caminhos novos para lutar contra as limitações a que foi condenado pelos políticos profissionais. É o repugnante triunfo da razão cínica, antessala de dias ainda mais difíceis, pois ao cinismo se reuniu a ingenuidade própria de todo aquele que “se acha”.

22/03 – Marília Arraes fez uma jogada de mestre em Pernambuco. Depois de ser maltratada e subestimada por anos, finalmente percebeu que sua força política é maior do que a força dos que controlam facciosamente o PT local e decidiu deixar o partido para alçar voo independente, dando um nó até em Lula.

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* – O escritor russo Ivan Turguêniev deu tratamento literário aos eventos e desdobramentos da Guerra da Criméia nos três contos cronológicos que incluiu tardiamente em seu clássico Notas de um caçador. No primeiro deles, O fim de Tchertopkhánov, ele trata metaforicamente da Guerra da Criméia; no segundo, Relíquia viva, ele faz o mesmo com as circunstâncias do fim da servidão na Rússia; e no terceiro, Pancadas! , ele antecipa, antevendo mais de 40 anos, os desdobramentos que levarão à aliança operário-camponesa contra o tsarismo. A análise que realizei para fazer aflorar o até então inédito sentido oculto de cada uma dessas três obras pode ser lida entre as páginas 180 e 228 do meu livro LITERATURA CONTRA IMOBILISMO NA RÚSSIA DO SÉCULO XIX, que pode ser encontrado em formato .pdf aqui.

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Tenho recebido muitas reclamações de pessoas que ao tentarem entrar neste blog são expostas a uma notificação que sugere que meu blog é inseguro e, ainda por cima, propõe como alternativa o endereço de um site de política dos EUA!!? Essa interferência indevida desvia interessados no meu trabalho e ainda não sei como fazer para impedi-la. Por enquanto, só me resta torcer para que as pessoas cliquem no botão “ignorar” que aparece na tela. Agradeço qualquer ajuda técnica com dicas de como resolver esse problema.

2 pensou em “PUTIN E BOLSONARO; LULA-ALCKMIN — E CIRO

  1. Marcelo Faria

    Boa tarde profº Novaes

    Sobre a mensagem de erro ao acessar o seu blog “https://novaes-c-politico.com.br”, é mais difícil este tipo de correção pois teria que envolver uma programação mais complexa dentro da página do blog (no gerador de conteúdo que você usa, WordPress).

    Como solução de contorno, sugiro que seja recomendado ao público em geral, que queira acessar o site, que utilize os navegadores Mozilla FIREFOX ou também o OPERA. Não sei se o navegador da Microsoft (EDGE) tem este comportamento.

    Caso a pessoa que esteja acessando realmente só possa usar o navegador Google CHROME onde aparece a mensagem que você mencionou (“Você quis dizer politico.com? O site que você tentou acessar parece falso. Os invasores às vezes imitam sites fazendo pequenas alterações quase imperceptíveis no URL”), o próprio auxílio do Google Chrome (navegador onde aparece a mensagem) sugere clicar em ignorar mesmo (“Se você acredita que uma página foi sinalizada por engano e quer prosseguir para o site, clique em Ignorar.”)

    Grato.

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