ALCKMIN E DELLAGNOL: ASPECTOS DA MESMA FARSA

Carlos Novaes, 24 de março de 2022

Em 12 de setembro de 2016, a ministra Carmen Lúcia tomou posse na presidência do STF; dois dias depois (14), o então procurador da República, Deltan Dellagnol, armou seu circo “evangélico” com o PowerPoint contra Lula, escancarando o facciosismo da Lava Jato em Curitiba. Naquela altura, este blog se ocupava em apresentar um entendimento do que se passava com base na ideia de que vivíamos (como vivemos) sob um Estado de Direito Autoritário-EDA, e tentava assuntar perspectivas para a então futura eleição presidencial de 2018 — havia o receio de que em 2018 se elegesse um candidato que nos levasse à consolidação do autoritarismo… e este blog via numa candidatura Alckmin, pelo PSB, essa ameaça. Foi por isso que, em 16 de setembro de 2016 escrevi um artigo em que tratava, a quente, esse conjunto de questões daqueles dias. Peço ao leitor que, antes de prosseguir, leia (ou releia) o tal artigo: CONSOLIDAÇÃO DO AUTORITARISMO.

De modo que, quase seis anos depois, esse reencontro contemporâneo de Alckmin e Dellagnol nada tem de casual, uma vez que o looping das facções está a dar mais uma das suas voltas espiraladas: Alckmin entrou no PSB para afastar do EDA as incertezas trazidas por Bolsonaro; e Dellagnol foi punido porque seu facciosismo revelou-se incomodamente afinado com o de Bolsonaro: usar o combate à corrupção para suprimir o “de Direito” do Estado de Direito Autoritário. A manobra com Alckmin e a punição de Dellagnol são eventos de uma tentativa de restauração.

Em outras palavras, Alckmin no PSB, com a meta de ser vice na chapa de Lula, e Dellagnol condenado, a indenizar o mesmo Lula, são eventos distintos de uma mesma grande operação facciosa: devolver o EDA à situação anterior àquela que resultou da eleição presidencial de 2018. Evidentemente, não vejo essa concatenação como resultado de qualquer conspiração totalizante. Trata-se de um exercício propriamente intelectual para entender o sentido geral do que se passa, para muito além do que poderiam ser as micro conspirações cotidianas que sempre tomam parte na tessitura do real.

Alckmin não foi bem sucedido em sua empreitada facciosa e ultraconservadora em 2018 e, agora, justamente por sempre ter sido um conservador, é resgatado para figurar num projeto de restauração conservadora do EDA em crise de legitimação citando Mario Covas, como se sempre tivesse sido um progressista… Farsa dentro da farsa.

Dellagnol foi bem sucedido em sua empreitada facciosa e ultraconservadora em 2018 (prendeu Lula/elegeu Bolsonaro) e, agora, justamente por figurar do lado derrotado nessa laçada da luta de facções do EDA em crise de legitimação, se vê condenado e a reclamar de injustiça por parte de um “sistema” cujo facciosismo ele próprio fomentou… Farsa dentro da farsa.

O que acaba de ser dito parece complexo? Parece implausível? Deixará de sê-lo se o leitor se der ao trabalho de ler os seguintes artigos anteriores:

  1. Consolidação do Autoritarismo (inclusive minha resposta aos Comentários);
  2. Ensinamentos do racha na base bolsonarista;
  3. Bolsonaro deve ser derrotado, não derrubado, mas…;
  4. Crise de legitimação e eleição presidencial;
  5. Voto impresso e crise de legitimação.

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