SENTIMENTO ANTISSISTEMA E A ELEIÇÃO DE 2022

Carlos Novaes, 17 de outubro de 2021

Nessas últimas semanas fizemos uma pausa para assistir sumirem no horizonte a histeria golpista, a bobagem do “frentismo” e alguns dos equívocos conexos. Nada disso deixou rastro, e vem se generalizando na mídia o clima de campanha eleitoral. Nenhum dos assíduos alarmistas de até bem pouco tempo sentiu necessidade de rever o que veio dizendo ao longo desses longuíssimos quase dois anos de disparates. Esse olhar de paisagem é parte do conformismo que ajuda a consolidar a bitola do velho normal como parâmetro para o desenrolar da crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário. Mas essa normalidade é aparente, pois a ilegitimidade é real.

Enquanto a maioria da sociedade anima suas expectativas orientada segundo a preferência pela democracia associada ao pendor antissistema, os políticos de carreira, profissionais do sistema, persistem no jogo de facções orientados para a disputa eleitoral do ano que vem, ocasião em que redefinirão seus cacifes para repartir o privilégio do exercício faccioso dos poderes institucionais.

Quem percebe essa assimetria de fundo entre a maioria da sociedade e os políticos facciosos não pode deixar de considerar a situação política como precária, especialmente depois que Bolsonaro, emparedado pela ação de segmento desgarrado da sua própria base, foi obrigado a jogar fora, precocemente e à vista de todos, o recurso ao blefe do “golpe”, escancarando sem subterfúgios sua sabida rendição ao velho normal, o que desembocou na campanha pelo fantasioso objetivo da reeleição.

Note bem, leitor: em 2022 Bolsonaro já não poderá jogar como se fosse antissistema, como fez com êxito em 2018. Pelo contrário: para se credenciar à reeleição ele terá de partir da condição de ocupante do cargo de presidente da República. Quer dizer, sempre que se jactar de alguma “realização”, sempre que comparar seu governo com governos anteriores, Bolsonaro estará afirmando sua condição de figura do sistema, não a ele contraposta. Isso muda tudo na campanha dele.

Ao contrário do que fez em 2018, para 2022, como está enleado ao velho normal, Bolsonaro terá de buscar alianças com outras facções, entrando de cabeça no jogo viciado dos palanques eleitorais dos estados, nos quais já não haverão os candidatos “antissistema” que se multiplicaram como ratos na eleição passada, e ajudaram a criar a onda favorável. Náufrago do próprio desgoverno, Bolsonaro irá aparecer procurando amparo nas boias cada vez mais ariscas de figuras carimbadas, disputando acordos políticos que em 2018 hostilizou, retoricamente, com sucesso.

Essa coreografia esvazia parte do que em 2018 foi erroneamente chamado de antipetismo, como se o eleitor estivesse rejeitando o PT, e não o sistema, ou seja, o Estado de Direito Autoritário, do qual o PT era, então, a face mais visível. Quer dizer, mesmo o que houver de antipetismo dificilmente se orientará na direção de Bolsonaro, um presidente inepto e desuamano, rendido ao sistema, que em 2022 nada poderá oferecer de novo.

Só quem não enxerga (ou não acredita) na crise de legitimação que subjaz o ânimo antissistema da maioria do eleitorado acha que Bolsonaro é um candidato forte porque dispõe da caneta, da força do cargo, como se o fato mesmo de estar no cargo já não gerasse antipatias, especialmente no caso de um governo tão mal avaliado. Para esse pessoal, “Bolsonaro não deve ser subestimado como veio sendo e, em 2018, acabou por chegar onde está”. Ora, o erro em 2018 (meu e de muitos outros) não foi “subestimar” Bolsonaro, mas subestimar a força do ânimo antissistema da maioria do eleitorado — não se viu que qualquer um que se colocasse na posição antissistema teria levado aquela eleição. Bolsonaro não foi o primeiro, nem será o último imbecil a se dar bem não obstante sua imbecilidade, afinal, o que dá forma às situações histórias não são as escolhas individuais dos espertalhões, mas as complexas interações entre essas escolhas e as escolhas dos demais…

Naquela altura, Bolsonaro pôde realizar uma campanha de segundo turno não apenas sem precisar fazer qualquer movimento concessivo, mas repelindo alianças; recuar para posições centristas ter-lhe-ia tirado votos, como então analisei aqui. Em outras palavras, em 2018 a maioria do eleitorado queria radicalidade antissistema. Sem esbanjar lucidez, e com a ajuda da nossa autointitulada esquerda (esse marisco agarrado ao Estado de Direito Autoritário), a maioria viu em Bolsonaro essa radicalidade.

A solidez aparente da polarização entre Lula e Bolsonaro não é aparente apenas porque o besta arruinou-se. A solidez dessa polarização fajuta (e fajuta não porque eles sejam a mesma coisa – não são!! – mas porque ambos são modos de aparecer muito diferentes de um mesmo problema: a falta de alternativa para construir um Estado de Direito Democrático orientado pelo combate à desigualdade), a tal solidez, eu dizia, é aparente também porque a preferência por Lula tampouco é sólida, e só persiste porque a crise de legitimação não aflora às consciências como resultado do Estado de Direito Autoritário, que também é obra de Lula.

Na falta de uma alternativa, a radicalidade da crise fica dissimulada na retórica do processo eleitoral, e permanece sendo vivida como sofrimentos contemporâneos, mas não concatenados, ganhando formas isoladas nas queixas ante o arbítrio policial contra uns, a fome de outros, os desvalimento social ante privilégios burocráticos de alguns, o desemprego de muitos, a corrupção, a ruína do espaço público, o racismo, a frustração da ascenção social, a deterioração urbana, as assimetrias de gênero, a perda da capacidade de consumo, a violência cotidiana, as mazelas ambientais, etc.

Ante rol tão poderoso de sofrimentos, e uma vez compreendido que o pendor antissistema persiste, não poderá deixar de haver espaço para uma ou mais candidaturas contrapostas à dupla que mais facilmente pode ser apontada como “do sistema”: Lula-Bolsonaro. Dos nomes que já se atiraram à disputa, o menos viável me parece Ciro Gomes, sendo o mais viável Eduardo Leite. Ciro tem escassas possibilidades porque é homem do sistema que insiste (desde 2018) em fazer a briga facciosa tradicional, referido às facções, centrado nelas, buscando apoios e polarizações no âmbito desse jogo – tudo isso com modos de coronel intemperante, fazendo uso de palavrões, numa figuração que não sugere alternativa aos modos belicosos de Lula e Bolsonaro. Exemplo recente desse comportamento equivocado ele nos deu ao declarar que Lula teria conspirado em favor do golpe contra Dilma, afirmação estapafúrdia por si só (tanto que logo em seguida teve de desdizer) e que, ademais, o mostrou preocupado com tema ao qual o eleitorado devota interesse zero.

Lançado ao grande público em programa da Globo muito bem roteirizado e coreografado, Eduardo Leite vem mostrando que poderá se revelar o avatar ideal para a ilusão de que uma novidade poderá, “serenamente”, deixar tudo de ruim para trás… Embora não seja propriamente um jovem, Leite combina a condição de governador de Estado com o fato de ser o nome mais destacado de uma nova geração, o que na situação atual vem a calhar: além de aparentemente dialogar com o pendor antissistema (Leite não teria os vícios das gerações mais velhas), sua mocidade ajuda a embalar a ideia de que é possível recomeçar, especialmente nesse figurino calmo, a contrastar com a brutalidade de Bolsonaro e com a crispação ocasional de Lula. O fato de Leite ter se declarado gay também ajuda, pois essa característica pessoal vai ao encontro da grande diversidade da sociedade brasileira, que tem estado encoberta pelo barulhento reacionarismo de costumes que a fugaz aderência de Bolsonaro ao sentimento antissistema acabou por sugerir, equivocadamente, que fosse majoritário entre nós. Não é. Nosso conservadorismo de costumes não é reacionário, isto é, a maioria dos nossos conservadores não quer impor sua régua de costumes aos demais e até gostaria de poder mostrar isso na próxima eleição…

Como Lula tem a história que tem e sofreu perseguição e punição movidas a arbitrariedades e injustiças por parte de formações facciosas adversárias, ele vem se beneficiando de aspectos do sentimento antissistema, pelo menos até que surja uma alternativa… Vamos ver como as facções adversárias vão se virar para trabalharem o “frentismo” (vejam os caprichos da história…) não contra Bolsonaro, mas contra Lula, tirando proveito do sentimento antissistema, e empurrando com a barriga a crise de legitimação. Leite pode se ajustar a esse papel.

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