BOLSONARO, DE JOELHOS, RECUA A CADA COICE. LULA FAZ MALABARES E O BRASIL SEGUIRÁ EMPACADO

Carlos Novaes, 15 de abril de 2021

O besta já não sabe nem o que dizer, muito menos o que fazer para dar a impressão, ainda que remota, de que está no comando do que quer que seja. Ele apenas ocupa a presidência da República, servindo de biombo para as ações nefastas de figuras ínfimas como Paulo Guedes, Sergio Camargo, Ricardo Sales, Damares e os Pazuellos.

A mídia convencional tem trazido esforços de análise sobre as manifestações mais recentes de Bolsonaro, mas já não há o que analisar. Estamos expostos a uma mistura de pânico, psicopatia onipotente e ausência de sincronia cognitiva, conjunto pelo qual o besta se dirige à opinião pública por meio de blefes, eles mesmos truncados, sem nexo, cuja ausência de sentido é preenchida arbitrariamente pelos néscios que o apoiam. Falam uma língua que nem para eles mesmos deixa memória do que foi dito — são jatos de dejetos cognitivos assemelhados ao falar humano, pelos quais simulam comunicação entre si o mero insulto aos demais, sem chegar a compor uma narrativa. A cada blefe, um recuo, numa espiral de desgaste crescente.

Faço prova do que acabo de dizer com um exemplo simples: até há poucos dias, o besta vinha falando em “meu exército”. Ora, o pronome “meu” era um blefe, pelo qual o blefador mor da República pretendia sugerir estar em condições de fazer uso pessoal da força militar. Como era um blefe, revelava pânico (afinal, sabia não contar com o tal apoio), psicopatia onipotente (“tendo o ‘meu’ exército posso fazer o que bem entender”) e ausência de sincronia cognitiva (“vou esconder o pânico com fanfarronices”). Esse uso do “meu” gerou críticas de todo lado, especialmente da alta-oficialidade, mais azeda desde a troca na Defesa e seus desdobramentos.

Se o besta fosse capaz de pensar, restaria óbvio que, se tinha de recuar do uso do “meu”, melhor seria não mencionar o assunto, para não passar recibo. Mas não. Hoje, em cerimônia militar com oficiais de alta patente, o besta resolveu falar de corda em casa de enforcado (no caso, ele próprio!) trocando o pronome: disse “seu exército” por cinco vezes. A troca exibe, de cara, falta de sincronia cognitiva, pois o besta não se deu conta de que o melhor teria sido simplesmente não falar em exército “meu”, “seu”, “nosso” ou “deles”. Mas, como não pensa, é empurrado pelo pânico de se ver recuando e, assim, insiste em se autoafirmar empregando a fórmula, mas trocando-lhe o pronome, o que escancara sua condição de blefador no uso do pronome anterior, ciranda que realimenta a espiral de desgaste crescente.

Agora, imaginem o que serão amanhã os efeitos dos reveses de hoje: o pleno do STF manteve nulas as condenações de Lula e o Senado definiu uma composição adversa ao besta para a CPI do coronavírus…

Vejam bem: a ameaça de Lula não está na hipotética disputa de um segundo turno. Não. Na marcha em que vai a realidade política, Lula acabará por tirar Bolsonaro do segundo turno em 2022. A ameaça da CPI não é ao mandato presidencial de Bolsonaro. Não. Na marcha em que vai a realidade política, a CPI acabará por preparar a prisão de Bolsonaro em 2023. E os dois conjuntos de fatos estão relacionados pela natureza facciosa do jogo político no âmbito do Estado de Direito Autoritário. Permitam-me explicar.

Tirando os apoiadores mais fiéis, tanto Lula como Bolsonaro disputam o mesmo eleitorado com dificuldades consideráveis e pantomimas assemelhadas: ainda que diferentes, ambos têm consideráveis passivos desfavoráveis (corrupção e incompetência criminosa) e ambos se apresentam como quem enfrenta o establishment… Se, em 2018, quando o besta aparecia como novidade, teria sido plausível um segundo turno entre eles; em 2022, um segundo turno parece pequeno demais para os dois. Pelo andar da carruagem, o segundo turno de 2022 terá alguém contra Lula, e esse alguém não será Bolsonaro, ainda que ele venha a disputar a eleição no cargo, como parece mais provável.

Já vimos que o jogo das facções não poderia, mesmo, manter Lula preso sem avançar com os processos contra Aécio, Serra, Alckmin e Temer. Como o sistema não suportaria esse stress, Lula foi solto e, em troca, fez-se silêncio sobre os processos contra os outros — os lulopetistas não fazem luta política com o tema da corrupção. Ora, agora, nessa nova rodada de lances desse jogo faccioso, mas segundo a mesma ordem de ideias, parece claro que não dá para o STF manter Lula elegível e uma CPI impedir Bolsonaro de concorrer… e vice-versa.

3 pensou em “BOLSONARO, DE JOELHOS, RECUA A CADA COICE. LULA FAZ MALABARES E O BRASIL SEGUIRÁ EMPACADO

  1. Carla

    Olá, Carlos Novaes
    Tempos difíceis na política, parece que levamos marretadas na cabeça, e no peito… Vendo poucos bons analistas, lembrei-me de você, que eu assistia no jornal da Cultura há alguns anos. Fiquei muito contente de te encontrar aqui. Quer prazer ler teus textos. Mas que inferno vivemos hein? E eu que vivia “sufocada” na época do PT, não achei que teríamos coisa pior. Embora anulei meu voto, não votaria naquele imbecil deputado Jair, que só manifestava estupidez. Bem, muito feliz de encontrar você, estarei por aqui…

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  2. Ricardo

    O problema de governança do Brasil se escancara para o mundo ver, com os três poderes em choque quando, segundo a Constituição, deveriam funcionar harmoniosamente.

    Após o recente acerto do ministro Barroso quanto a fazer valer o Regimento Interno do Senado (e Constituição), no que ordenou instalação da CPI (do fim do mundo) pelo presidente do Senado, a ministra Carmen Lúcia pede explicação ao presidente da Câmara dos Deputados acerca de ele, mais ou menos como o outro, protelar a apreciação dos pedidos apresentados à Casa concernentes ao impeachment do Besta (já passam de 100). Explica-se, aí, o motivo da briga parlamentar sempre que é chegada a hora de se eleger os presidentes do Congresso Nacional: o poder de comandar a pauta, e com isso atender a interesses empresariais e financistas, além de manter, se houver cenário favorável, o chefe do Executivo no cabresto, barganhando cargos e parcela do orçamento.

    Vide a peça orçamentária deste ano, na qual o relator, um tal senador Bittar, do Centrão, pesou a mão com as emendas parlamentares com propósitos (todos sabemos) meramente eleitoreiros (afinal, na hora mais escura da pandemia, fazer obras nos redutos eleitorais é mais importante do que destinar verba ao Ministério da Saúde). E o presidente Besta, que vivia a falar mal dos congressistas parasitas, blasonando que não teriam vez na sua (in)gestão, nada disse diante de mais essa investida fisiológica daqueles que, agora, precisa chamar de “minha base aliada”.

    Na incapacidade de administrar acertada e assertivamente o país como o exige a situação, o Besta tem se concentrado em fazer apenas aquilo que está a sua altura, intelectual e institucionalmente: nomear algum indicado de alguém para algum cargo. E no caso da promíscua conversa gravada com o senador Kajuru tudo leva a crer que sua nova aposta é o impeachment do máximo de ministros do Supremo, assim teria um STF para chamar de quase seu. Até concordo que alguns ministros mereçam o impedimento, como um tal Gilmar Mendes, a quem alguns legisladores acusam de manter engavetadas pilhas e mais pilhas de processos, que lhe servem de poder de barganha contra políticos tão sujos quanto ele próprio. Todavia, tremo em pensar no tipo de elenco que teríamos no STF em se tratando de indicação bolsonarista.

    A cada dia fico convicto de que estes sistemas de indicação alimentam a corrupção, a prevaricação e o mandonismo dentro das instituições nacionais. Vejamos o caso de um tal ex-desembargador Kássio Conká, que cassa a liminar de uma juíza federal, a qual suspendia as obras da Ferrovia Ferrogrão (por acertadamente destacar seu altíssimo impacto socioambiental), e como prémio o dito-cujo ganha do Besta a indicação para uma cadeira no Supremo. Após sondagem com Gilmar Mendes, que dá sua benção (QI no Brasil vale mais que competência e idoneidade), o Senado sabatina e aprova o tal Kássio Conká (o que a mim não passou também de teatro, como quase tudo em Brasília). Agora, o superintendente da PF do Amazonas, com uma ficha insuspeita e após conduzir a maior apreensão de madeira ilegal do país – ato que desagradou o pseudo Ministro do Meio Ambiente –, termina exonerado do cargo que tão honrosamente veio desempenhando.

    O Brasil não é para amadores, já dizia o outro!

    Se o problema fosse só o presidente, que faz uma cagada atrás da outra (não assinou contrato com nenhuma fabricante de vacina contra covid quando todos os líderes mundiais faziam isso, chancelou as provocações do filho deputado e do ministro das relações exteriores ao principal parceiro comercial do país e fornecedor de mais da metade dos insumos para a produção nacional de vacina, além de disseminar propaganda de medicamentos preventivos sem comprovação, encampar luta aberta contra o lockdown, estimular o não uso de máscaras e promover aglomerações sempre que a oportunidade se apresenta), se fosse SÓ isso…

    Olha, Novaes, o problema nacional não é mais um câncer. Virou metástase.

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