E SE BOLSONARO FOR O FAUSTÃO DA POLÍTICA?

Carlos Novaes, 17 de junho de 2021

Longe de mim pretender injustiçar o Faustão comparando-o a Bolsonaro como pessoa ou personagem público. Mas pode haver uma simetria formal, que independe de uma comparação de conteúdo.

Faz mais de vinte anos estudo e pesquiso televisão, testando material audiovisual do telejornalismo à telenovela, passando por programas de auditório, minisséries e talk shows. Lá nos idos de 2003-2005, em um dos mais longos e detalhados estudos que fiz, amplamente amparado em pesquisas em tempo real com telespectadores, examinei a performance de apresentadores como Silvio Santos, Ratinho, Gugu e Fausto Silva. Uma das surpresas (pelo menos para mim) desse esforço foi a descoberta de que Fausto Silva era o menos apreciado pelos telespectadores, não obstante comandasse o programa de maior audiência. Em 2016, ao discutir aqui simetrias entre o “domingão da política” e o “domingão da TV”, tive oportunidade de mencionar, de passagem, o que aprendera sobre Fausto Silva mais de uma década antes, e escrevi:

“A se debater em meio às rotinas propriamente políticas do legado paisano da ditadura, a sociedade brasileira tem nos domingos televisivos rotineiros a reiteração por assim dizer cultural desse legado, não apenas na versão mais retrógrada de um Silvio Santos perturbado, com tiques de déspota senil e aparentemente inofensivo, a simular harmonia familiar enquanto arruína o negócio dela; mas também, e sobretudo, com Fausto Silva, em seu Domingão do Faustão, um programa a que as pessoas assistem não obstante estarem sempre prontas a declarar desapreço pelo apresentador. Qualquer um que venha pesquisando TV profissionalmente sabe que Fausto é visto pelo público como alguém que “não deixa os outros falarem”, sendo frequentemente classificado como “autoritário”, “grosseiro” ou “rude” pelo telespectador que, ainda assim, continua a assisti-lo: abandonado a rotinas, esse telespectador imagina encontrar no palco do “Domingão” a “vida real” do elenco ficcional da Globo; mais ou menos como o eleitor que depois de ter votado para o legislativo segundo rotinas sonhou encontrar na sessão dominical do impeachment um representante à altura dos desafios da hora presente.”

De modo que foi nada surpreendente para mim a reação do público ao trabalho do substituto de Faustão no último Domingão — na verdade, Fausto era um personagem cuja substituição o público desejava sem exatamente sabê-lo. O modo ameno, quase carinhoso de Leifert ajudou a compor o quadro.

Ao contrário do que muitos pensam, entendo que para além de tudo que já há de explícito contra Bolsonaro, o modo crispado e exasperado de ele exercer o cargo já deu, havendo contra ele um desejo profundo de substituição, em parte considerável do público não exatamente pelo conteúdo, mas pela forma: as pessoas estão fartas dos irritadiços e querem alguém mais ameno na presidência da República (virão daí dificuldades adicionais para Ciro Gomes).

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