O CARÁTER CONSERVADOR DO FRENTISMO

Carlos Novaes, 23 de junho de 2021

Com acréscimos às 19:00h, em Fica o Registro

A luta dos democratas no Brasil requer duas atitudes simultâneas: uma de conservação, que consiste na garantia de permanência para as franquias democráticas já vigentes; e uma outra, de inovação, que consiste na luta pela consolidação da democracia em um Estado de Direito Democrático. Pela conservação, se conservam os aspectos positivos da transição democrática truncada, que nos trouxe do Estado da ditadura paisano-militar ao Estado de Direito Autoritário que nos infelicita. Pela inovação, se completará a transição da democracia desde a sociedade (onde ela vem viva lá das lutas contra a ditadura) para o Estado, que ao longo desses mais de 30 anos resistiu o quanto pôde a se transformar. Em outras palavras, o Brasil não dará um passo adiante enquanto a maioria conservadora que já garante as franquias democráticas não desabrochar em uma maioria inovadora, lucidamente empenhada na luta pela construção de um Estado de Direito Democrático, cujo pilar central é o enfrentamento da desigualdade.

Para que esse desabrochar aconteça, o Brasil precisa de uma vanguarda intelectual e política em tudo oposta ao que propõe o “frentismo” contra Bolsonaro. Esses políticos e intelectuais, muitos dos quais compõem a nossa autointitulada esquerda, supõem (ou alegam) que o besta ameaça as instituições colapsadas de um fantasioso Estado democrático de direito. Ora, nem a maioria da sociedade brasileira, cerca de 80%, precisa de uma Frente para defender a manutenção do que ela já garante e que, por isso mesmo, Bolsonaro não tem condições de esmagar: as franquias democráticas; nem essas franquias democráticas podem ser tidas como consolidadas numa forma estatal democrática. O Brasil dos frentistas requer fazer vista grossa (quando convém) para as evidências diárias do seletivo autoritarismo pelo qual, há mais de 30 anos, o Estado de Direito Autoritário faz o exercício faccioso dos poderes institucionais contra a maioria da sociedade brasileira.

Na prática, como está limitado à defesa das franquias democráticas, confundindo-as com um Estado democrático de direito inexistente, o “frentismo” se deixou aprisionar num beco-sem-saída conservador, amputando a luta democrática de seu ímpeto inovador. É por isso que os frentistas propõem conservadoramente a volta ao Brasil pré-Bolsonaro, e se aferram à defesa deste Estado de direito, cujas práticas Bolsonaro tem feito ainda mais autoritárias, embora exerça o cargo no âmbito do “de direito”. Também não é outra a explicação para os frentistas não enxergarem a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário, afinal, uma crise de legitimação não é senão o sentimento da maioria de que são ilegítimas as práticas do Estado sob o qual vive.

Mesmo o melhor “frentismo” está cego para (e nem saberia o que fazer, se o enxergasse) o que há de auspicioso no sentimento antissistema da maioria da sociedade brasileira. Deriva dessa cegueira a confusão que fazem entre Política (com P maiúsculo) e a prática dos profissionais da política, como se recusá-los fosse uma recusa à política enquanto tal, que diz respeito a todos nós.

E os frentistas já vêm cegos desde antes de ser tornarem frentistas: foi essa cegueira que permitiu a Bolsonaro se tornar o único beneficiário da justa fúria antissistema que orientou a maioria do eleitorado em 2018. Quer dizer, a cegueira dos futuros frentistas favoreceu a vitória de Bolsonaro e é um obstáculo à construção do movimento que, para além de derrotar o besta, enfrentaria programaticamente a besta ditatorial viva em facções militares, milicianas e paisanas.

Fica o Registro:

Descendo da análise de caráter geral para o solo da prática política propriamente eleitoral, o notório revigoramento eleitoral de Lula já deixou claro que compor uma frente anti-Bolsonaro implica aderir, de antemão, a Lula, o que, de cara, afasta muita gente. Mas, (e até por isso), a força do controvertido Lula vai suscitar uma arregimentação contrária, ou seja, uma frente anti-Lula, frente esta que, diante de uma possível implosão de Bolsonaro, poderá ser liderada por um terceiro. Ainda não temos elementos para saber se esses desdobramentos levarão ou não à realização de um segundo turno na disputa presidencial.

De todo modo, a teoria do “frentismo” caminha para garantir a si mesma a mais ingrata vitória, pois como quer que a realidade venha a se apresentar, um segundo turno em 2022 se anuncia, de antemão, o estuário conservador ou de uma gloriosa frente, ou de duas: a frente anti-Bolsonaro e a frente anti-Lula. Como defensor do Estado de Direito Autoritário, o frentismo é inderrotável.

[19:00h]

– A saída de Salles do ministério é mais uma baixa no núcleo duro de Bolsonaro e faz estrago ainda maior do que a queda de Araújo. O fato de ser mais um a cair sendo elogiado pelo chefe deixa ainda mais claro o contínuo enfraquecimento do besta, que não consegue manter no governo auxiliares de sua preferência pessoal. O leitor pôde e pode acompanhar neste blog essa trajetória descendente: vitorioso na eleição, Bolsonaro passou a atolado, e então a, blefador, rendido, desorientado, acuado, de joelhos e exasperado.

– A confirmação pelo STF da suspeição de Moro no julgamento de Lula é mais uma má notícia para Bolsonaro, e dupla: fortalece Lula e, por isso mesmo, dá espaço para Moro, que poderia se tornar não uma terceira via, mas o próprio representante da via que Bolsonaro tem desgastado com sua incompetência e truculência. Moro é o único que pode se tornar uma alternativa para boa parte do eleitorado mais afeiçoado a Bolsonaro, no caso de ele se desgastar a ponto de sugerir derrocada — afinal, esse pessoal que dá apoio aparentemente incondicional a Bolsonaro é neófito em luta política real, e tenderá a se encolher, não a se radicalizar, se a conjuntura se revelar irremediavelmente adversa ao “líder”. Esse cenário tenderá a ficar nítido nas ruas, à medida que as manifestações contra Bolsonaro crescerem (como tudo indica que vai acontecer). A movimentação bolsonarista de rua se expandiu no vácuo gerado pelo coronavírus. Com a oposição na rua, o desânimo deles tenderá a aparecer.

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