O SENTIDO NACIONAL DA POLÍTICA MIÚDA

Carlos Novaes, 16 de novembro de 2021

No post imediatamente anterior, publicado aqui há cerca de um mês, antecipamos o que a mídia convencional traz, agora, como notícia da “nova” realidade de Bolsonaro: suas dificuldades para lidar com os interesses eleitoreiros das facções nas composições estaduais. Para quem analisa a situação no intuito de se orientar acerca do rumo político do país, esse jogo miúdo estadual, em si mesmo, interessa pouco, pois o resultado não varia: todos eles se arranjam, com os sacrifícios de praxe, e as versões locais do Estado de Direito Autoritário continuam.

O que ainda há de interessante nisso, porém, é o fato de que a movimentação de Bolsonaro no âmbito estadual se mostra atribulada não apenas em razão da imbecilidade dele, mas porque essa costura de interesses esbarra na preferência da sua base paisana por uma ruptura com o “sistema”. Bolsonaro está a fazer a política facciosa pró-sistema que a sua base mais fiel rejeita. Essa base insiste em Bolsonaro como alternativa antissistema. Por que, depois de tudo que houve, depois até mesmo da Carta do Temer, essa base paisana ainda acredita que Bolsonaro venha a se conduzir de um modo antissistema, encarando toda evidência contrária como tática? Porque nosso cérebro trabalha sobretudo com as narrativas em que ele próprio se empenhou e já enviou à memória. Para ele, é mais fácil elaborar uma narrativa justificadora do que uma narrativa contraposta, afinal, enquanto o primeiro tipo tem a marca do mero ajuste; o segundo impõe a trabalheira que toda construção nova requer.

Quando, em 2002, Lula lançou a Carta aos Brasileiros, a base lulopetista com preferência firme pelo socialismo viveu dilema cerebrino parecido. Naquela altura, não foi incomum encontrar petistas com a narrativa de que a Carta respectiva também era apenas um recuo tático, para vencer a eleição; depois de vencer, Lula haveria de fazer um governo no rumo do socialismo… [A criação do PSOL saiu da frustração dessa expectativa (para, no final, acabar repetindo a capitulação petista, mas sem carta – mas isso já é outra história)]. Voltemos.

A manobra que Lula consubstanciou na Carta deu certo não apenas porque era para valer, mas, sobretudo, porque foi realizada afinada com a democracia e num ambiente político de esperança: ficou incontornável dar uma chance a Lula e seu PT. A situação de Bolsonaro é oposta: ele já ocupa a presidência da República, e o faz de um modo tão incompetente e desumano, que, ao contrário de Lula em 2002, já não pode suscitar qualquer esperança. Bolsonaro é a certeza de que dias piores virão.

Lula, agora, ainda pode suscitar esperanças por três razões: primeiro, o desastre do governo Bolsonaro torna qualquer um motivo de esperança; segundo, os governos Lula foram indiscutivelmente melhores que o governo Bolsonaro; terceiro, Lula pode camuflar sua condição de agente faccioso na injustiça que sofreu na disputa contra outras facções. O Lula injustiçado no jogo bruto do sistema ajuda a esconder o fato de Lula ser figura central na operação do mesmo sistema, nesse caso, o Estado de Direito Autoritário.

É nessa camuflagem que Lula pode dialogar com o sentimento antissistema da maioria da sociedade brasileira, em seu natural pendor cerebrino pelas narrativas acomodatícias. Vem daí minha surpresa com as notícias sobre o interesse de Lula em ter Alckmin como vice em sua chapa. Afinal, se Alckmin viesse a enveredar por esse caminho suicida, estaria a formar com Lula uma chapa pró-sistema em estado puro. Alckmin na vice ajuda a quebrar o que há de falso encanto na candidatura de Lula. Fiquei surpreso porque, a ser verdade o desejo que se atribui a Lula, ele, ao contrário do que imaginei, não entendeu bem o lugar que ocupa na política brasileira atual. Seria um erro cuja irracionalidade compete com aquela que o levou a não disputar a eleição de 2014 no lugar de Dilma — em política, do irracionalismo saem conformações monstruosas…

E mais: esse balão de ensaio de Alckmin como vice de Lula pode ter ajudado Eduardo Leite nas prévias do PSDB. É que os tucanos paulistas que temem ter de enfrentar Alckmin na disputa pelo governo de SP podem ter sido levados ao cálculo de que prender Dória na disputa pela própria reeleição ajudaria a empurrar Alckmin para a chapa de Lula, uma vez que o único adversário temível para Alckmin na disputa pelo governo paulista é justamente Dória, que ainda manejaria a máquina estando no cargo. Se for assim, Lula terá contribuído para que um adversário perigoso se viabilize como candidato à presidência.

Seja como for, por que Alckmin abandonaria a grande chance de voltar a pilotar o segundo orçamento do país em troca da condição figurativa de vice do Lula? Ademais, essas especulações devem ter motivado ainda mais Alckmin para a disputa do governo de SP, mesmo se tiver de enfrentar Dória, e não o desconhecido Garcia; afinal, depois de tentar atraí-lo para a chapa de Lula, o PT terá alguma dificuldade para atacá-lo na disputa para governador — se servia para vice, por que não serve para governador?

Se Lula vem semeando dificuldades em terreno que parecia propício, Bolsonaro está a encontrar dificuldades no terreno lamacento em que sempre chafurdou: a emergência de Moro não como terceira via (como já apontei no último parágrafo desse post aqui), mas como candidato na própria via em que o besta se julga senhor. Moro pode se tornar uma alternativa bolsonarista a Bolsonaro, dando novo embalo ao reacionarismo antissistema, que quer substituir o Estado de Direito Autoritário por um Estado com menos de direito e mais autoritário, vamos ver.

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