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De cinismo, hipocrisia e farisaísmo

Carlos Novaes, 9 de outubro de 2014

 

Se ao invés de ser uma ação propriamente prática, a política se prestasse a cavalo mediúnico da moral, o mundo seria um vasto Taleban com dissidência EI. Assim, devemos afastar todo moralismo e encarar como parte do jogo as porções de cinismo e hipocrisia que os políticos servem uns aos outros quando sentados à mesa dos acordos e apoios nessa passagem do primeiro para o segundo turnos. Tanto quanto nos vai sendo franqueado pela mídia, nossa tarefa é menos repugnar as iguarias, ainda que devamos examinar-lhes procedência e consistência, e mais observar a conduta dos comensais durante a ceia, a ver se não estarão extrapolando as margens da falta de decoro tolerável.

Luciana Genro sequer se aproximou da mesa e nem a ela foi convidada, salvo por um aceno tímido do PT, logo recolhido às mangas engorduradas, pois a moça dissipou prontamente todas as dúvidas, tendo esperado apenas a deliberação coletiva do seu PSOL. Embora de boa procedência, entretanto, a resposta servida não chega a ser um primor, pois oferece consistência de margarina: depois de acertadamente ter mostrado ao longo da campanha que PT e PSDB são lenha da mesma madeira, o PSOL nos vem com a decisão de repudiar Aécio, mas poupando Dilma com um mero lavar as mãos, o que não faz jus sequer ao “uma ova!” que se tornou célebre, e mais uma vez mostra o quão difícil é para um broto vigoroso abrir-se ao sol vencendo a sombra do tronco que lhe deu origem.

Ao apoiar Aécio, Eduardo Jorge, homem de partido, segue inclinação antiga dos verdes, que na hora da fotossíntese sempre pendem para os tucanos. Como faz muito tempo que a luz é a mesma, já não faz diferença para nós, que vamos ter de comer a salada inconsistente e improcedente que de qualquer modo vai sair do segundo turno. A única vantagem que algum desavisado poderia ver nesse apoio é a de, no caso de uma vitória, Aécio vir a conduzir ao Ministério da Saúde o próprio Eduardo, um dos idealizadores do SUS, como se o tucano pudesse ter a disposição de aproximar o sistema das metas idealizadas e nunca perseguidas. Em suma, o apoio do respeitável Eduardo Jorge não chega a valer o voto que eventualmente tenha valido no primeiro turno.

A grande surpresa à mesa é Marina, menos pela atitude e mais pelo cardápio. Conduzindo-se desde o início como sempre faz, ou seja, já tinha uma posição fechada, mas faz os salamaleques de costume no fito de emprestar-lhe o colorido de decisão coletiva (quem foi rifado dessa vez não foi um ou outro peixinho, mas toda a Rede, assunto para outro dia), Marina se apresentou à ceia dos acertos não com uma porção de hipocrisia ou de cinismo, mas com uma travessa de farisaísmo. Depois de ter passado toda a campanha buscando se credenciar junto aos donos do dinheiro (e não qualquer dono, pois ela cortejou especialmente aos bancos e ao agronegócio), a nos intoxicar com a defesa de um programa de governo basicamente reacionário e conservador (que incluiu até a demagogia de um 130 de última hora), Marina tenta impor a Aécio (logo a quem!) não a tão defendida autonomia do Banco Central, mas bandeiras que ela própria não apenas não desfraldou em sua campanha, como tratou como carga indesejável, esquecida naquela parte da carroceria em que já nas primeiras freadas sofreu esmagamento ao peso da carga nova. Causas de longeva procedência e inegável consistência, como a das terras da população ameríndia, principal vítima da expansão predatória do agronegócio, e a da Reforma Agrária, cuja não realização num país continental só se explica pela ação conjunta, sempre reacionária e frequentemente sangrenta, dos rentistas e dos ruralistas, são agora trazidas ao primeiro plano porque Dona Marina aprendeu com seus novos parceiros a lógica vespertina do “minimizar danos”. O galo já cantou faz tempo; agora é tarde!

 

OBS. 1 – em razão de tudo o que foi dito mais acima, não posso concordar com meu prezado Daniel Aarão Reis, que em artigo na Folha de ontem trouxe uma matemática ruim e um moralismo impertinente para defender Marina. Matemática ruim porque não foram três as surpresas, então, mas quatro: Aarão esqueceu da maior delas, a guinada da candidata ao reacionarismo. Moralismo impertinente porque disse-a uma pobre Geni, à qual todos agora acorrem depois de tê-la injustiçado no primeiro turno. Nem uma coisa, nem outra. Nem vi Dilma ou o PT procurarem Marina; nem ela foi injustiçada no primeiro turno. Por certo que houve muita baixeza dos adversários contra ela, especialmente por parte da campanha de Dilma, mas não houve injustiça, uma vez que Marina ofereceu uma carreta graneleira de propostas reacionárias recém incorporadas à sua tão antiga quanto respeitável bagagem, bagagem essa que foi esmagada pela carga nova aos solavancos da campanha precisamente porque a motorista da carreta não achou de defende-la, e agora posa de exigente para que Aécio o faça. Sabemos no que isso vai dar se Aécio vencer.

OBS. 2 – Para quem se interessa pelo realismo literário russo da segunda metade do século XIX, literatura que refletiu, e incidiu sobre, as contradições que resultaram nas duas revoluções que varreram aquele país no início do século XX (1905 e 1917), informo que apresento aqui, em formato .pdf, uma análise minha do conto RELÍQUIA VIVA, de Ivan Turguêniev.

IMPASSE FUMEGANTE

Carlos Novaes, 8 de outubro de 2014

 

Como eu ia dizendo no último capítulo exibido aqui, estamos em tempos propícios à transformação, mas carecemos de um vetor político que a traduza. Rememorando também as cenas do penúltimo capítulo, cuja íntegra pode ser encontrada aqui, o argumento do que vai sendo narrado nestes textos pode ser resumido assim: a desigualdade brasileira, sempre ela, à partir de 1994 deu lugar a um populismo sem uma força propriamente populista, pois a desigualdade é tamanha que a própria classe dominante é agente do populismo. Os nossos capitalistas, nos quais não se pode encontrar uma fibra de apego a ideias (falha de caráter que nos livra de alguns problemas, mas nos impõe outros, talvez ainda piores), como eu dizia, os capitalistas locais não se importam que o Estado ajude um pouco (um pouco) aos muito pobres porque, afinal, fica muito barato e, julgam eles, não há ameaça à ordem ou, na pior das hipóteses, a pouca ameaça que há pode ser resolvida pelo dispositivo paisano-militar cuidadosamente preservado da ditadura, a PM. Essa é a lógica do pacto realizado pelo Real, ao qual sucumbiram todas as forças políticas com possibilidades de protagonizar maiorias eleitorais.

O problema é que como não existe almoço de graça, a conta não fecha, ou melhor, só fecha se, num pequeno arranjo de contabilidade criativa, não entrarem nela duas despesas: a que resulta da degradação ambiental e as mazelas que se alastram pelas vias e enxovias das nossas aglomerações urbanas — enfim, floresta e cidade irmanadas no ar mefítico que respiramos (o que a gente não der conta de respirar haveremos de legar às gerações futuras). Como não poderia deixar de ser, a essa desordem ordenadora na gestão da dimensão material do problema corresponde uma crise na representação dos interesses e esperanças da sociedade que mais e mais afunda no sofrimento resultante, crise esta que retroalimenta a desordem aquela, numa geringonça política que articula um circuito excretor-fonador pelo qual o dizer nefasto aduba o fazer maléfico, e vice-versa (sobretudo), cambalhota por assim dizer linguística pela qual nossos maiores edificam pela primeira vez na história deste planeta uma gramática dedicada não à dimensão culta da língua casta, mas à sua avacalhação, se é que estou me fazendo entender.

Essa gramática avacalhada não é senão outra maneira de escrever o descolamento entre o mundo da vida, onde estamos todos nós, e o mundo dos profissionais da representação e da gestão, que vivem num outro micro-clima. Esses profissionais sequestraram a política, tiraram-na da nossa vida e do controle da nossa vista, e não obstante já tenhamos pago e repago, diariamente, o valor do resgate — cujo cálculo é similar ao da dívida pública: cada parcela paga é variável de cálculo para estipular a próxima parcela, nunca se prestando a reduzir o principal — não obstante todo os pagamentos feitos, dizia eu, eles continuam a seviciar a vítima e a propor reformas que lhe aumentem as amarras, como o fim da reeleição para o executivo, voto distrital ou em lista, mandatos de cinco anos com coincidência eleitoral, financiamento público de campanhas e outras malandragens. Só não se fala em acabar com a reeleição para o legislativo, a mãe e o pai de todos os sequestradores.

À medida que os resultados do primeiro turno vão sendo conhecidos, descobrimos que as coisas vão de mal a pior, pois a representação congressual ficou mais conservadora do que já vinha sendo. O absurdo desse resultado me parece óbvio, afinal, a sociedade brasileira não ficou mais conservadora nos últimos quatro anos. Muito pelo contrário, ela se mobilizou mais, protestou mais e se mostrou menos intolerante com as chamadas minorias, como dá evidência um crescente relaxamento na rigidez dos costumes, também resultado de uma situação demográfica com presença acentuada de jovens. Atenção: não estou aqui apenas deplorando o avanço do conservadorismo no Congresso; não — eu estou sobretudo chamando a sua atenção para a acentuação da crise de representação, pois a uma sociedade que se abre se tem como resposta um sistema político que se fecha. Em outras palavras, há algo errado com nosso sistema de representação, que baseado numa nociva memória de rotinas impede o fluxo do novo para o topo do sistema político.

Essa memória de rotinas fica bastante clara tanto no crescimento das bancadas de evangélicos e de policiais militares, quanto no aumento da representação dinástica, que vai se firmando entre nós à medida que filhos e familiares de políticos tem nessa relação de parentela um ponto de largada vantajoso na corrida por um lugar ao sol, ou melhor, à sombra. O que todos os membros desses agrupamentos tem em comum é o fato de partirem de formas pré-políticas de associação para alavancarem sua condição de representantes políticos, o que é um modo perverso de refletir a falência dos partidos políticos: ser evangélico, polícia ou parente tornou-se uma forma de instrumentalizar esses coletivos para furar, também, quando não principalmente, em causa própria, o bloqueio à ascensão social imposto pela desigualdade, o que é sempre menos difícil do que enfrentá-la como problema coletivo. Digo que essa é uma variante pré-política porque a seleção que se faz dentro desses agrupamentos por assim dizer corporativos não se dá segundo práticas da esfera pública. Eles estão contrabandeando para dentro da dinâmica da representação memórias rígidas, fundadas em afinidades pré-políticas (e, até, anti-políticas) segundo preceitos bíblicos, códigos de conduta hierárquica e interesses familiares restritos, memórias que não estão abertas ao intercâmbio que seria de esperar de uma ação propriamente de representação, destinada a atender aos fluxos emanados da sociedade. Daí o enorme contraste entre a sociedade que se mobilizou em 2013 e a representação que sai das urnas em 2014. É um contraste fabricado pela junção perversa, e a cada dia mais perigosa, do preceito da reeleição infinita para o legislativo, que permite a criação de rotinas (memória) facilitadoras da reiteração de interesses já contemplados, com a ação de grupos de interesse que entenderam o dispositivo inercial embutido nessas rotinas e a elas acoplam as suas próprias memórias reificadas (a “verdade” bíblica, a ordem militar, o bra$ão familiar), em tudo avessas ao fluxo que caracteriza a sociedade, fluxo este que não é outra coisa senão a troca intensa de memórias não reificadas, ora mais, ora menos abertas à mudança, mas sempre em movimento.

A esses grupos enrijecidos por definição, junta-se a não menos granítica bancada ruralista, a mais antiga delas, que aprendeu lá atrás o caminho das pedras, aprendizado que já foi chamado de pemedebismo, como se o que pudesse explicá-la fosse a dinâmica parlamentar e, ainda por cima, tão recente. Mas essa discussão do pemedebismo fica para outro dia, pois a queixa ante o tamanho dos meus textos é quase generalizada. Cumpre acrescentar apenas que as possibilidades de ação concatenada entre essas bancadas de memórias rígidas são tão grandes quanto diminuem as chances de se obter êxito intra muros contra elas. A mais temível delas é a bancada da polícia, porque ela está plantada em todo o território nacional, a cada dia ganha mais articulação (inclusive nas Assembléias estaduais e Câmaras municipais), tem capilaridade urbana miúda, está fundada na hierarquia e, o mais alarmante, reúne grupos internos com uma predileção pelo uso tão indevido quanto “legitimado” da força.

Vivemos uma situação em que não há vetor transformador e nem tudo são cinzas. Há fumaça tênue ao longe. Como ainda não é possível sentir-lhe o cheiro, deixo ao leitor escolher se o material está em chamas ou em mera decomposição.

NOTAS CURTAS – 2, 22/08/2014

Carlos Novaes, 22 de agosto de 2014

 O PSB acerta quando escolhe Luiza Erundina para substituir o contrariado Siqueira na coordenação geral da campanha presidencial. Deixa de lado um quadro da velha política e traz para o comando uma liderança com luz própria, que sempre enfrentou as máquinas políticas rotineiras na busca de uma nova política, mesmo pagando o preço alto que a coerência sempre impõe a quem não se submete ao realismo da “política real” — quem se pauta pela chamada política real não entende que o real será o que fizermos dele.

O PSB erra quando gasta suas poucas inserções na propaganda eleitoral para falar da dupla descoberta que a morte de Eduardo Campos impôs ao eleitor: a de que havia uma alternativa e a de que a perdeu. Isso é matéria de análise, não de propaganda. Ao invés de gastar um tempo precioso repetindo para o eleitor o que ele já está vivendo, a propaganda deveria fazer dos sentimentos e descobertas suscitados alicerce para o que tem a propor para adiante, falando de Marina e seu projeto, não de Campos.

O PT e o PSDB fazem campanhas convencionais, pouco inspiradas, mostrando Dilma e Aécio como fazedores, prisioneiros de seu compromisso irremediável com a política padrão, desprovidos de repertório para atacar os temas que realmente importam quando se debate o futuro do país: a desigualdade, a crise de representação, a corrupção e o modelo de desenvolvimento. Por mais que as cenas de suas grandes obras, ou os gráficos sobre suas realizações, fossem narrativas honestas do que fizeram (e não são), ainda assim essa pirotecnia não pode encobrir o que o eleitor já enxergou: é quase nada, quando se entende que a desigualdade é o grande desafio; é pouco, perto do que poderia ser feito com os mesmos recursos, se alocados com mais eficiência e honestidade; é insustentável, sempre que se tiver em mente um verdadeiro modelo de desenvolvimento e não uma sucessão de iniciativas ditadas antes de tudo pelos grandes interesses do mundo do dinheiro; é conservador, pois o país requer não uma reforma política, mas a própria reinvenção da política, notadamente ali onde ela é representação.

O PSOL erra ao trazer Luciana Genro com um discurso próprio de uma campanha para o legislativo, com chavões como “sistema” e “conto com você”. A continuar assim, vai sair da campanha menor do que entrou.

O PV desperdiça Eduardo Jorge numa campanha com ares de pregação ao “homem de boa vontade”, voltada, quando muito, aos já convertidos.

NOTAS CURTAS – 1, 19/08/2014

Carlos Novaes, 20 de agosto de 2014

Apresento abaixo avaliações de programas eleitorais centradas em aspectos mais formais. Mais adiante, quando houver material acumulado, incluirei análise mais detida do conteúdo.

PSB –  O partido fez uma homenagem correta à memória de Eduardo Campos, invocando o passado recente para dar corpo à emoção do presente, com uma tão discreta quanto adequada referência ao futuro, sem nenhum apelo eleitoreiro. Marina, adequadamente, não apareceu. Muito bom.

PSDB – O programa de estréia de Aécio no horário nobre noturno foi um desastre. Embora com a ideiazinha interessante de mostrar o candidato junto ao eleitor, recorrendo à filmagem da recepção de seu discurso em diferentes telas, o efeito almejado acabou por se perder porque o candidato pouco olhou para o eleitor, isto é, para a câmera. A maior parte do tempo ele fitava o horizonte, talvez para parecer “estadista”, “visonário” ou lá o que seja. O detalhe é que essa escolha contraria a imagem de “conversador próximno” que o candidato vinha buscando construir até aqui. No primeiro programa ficou estampado que o conceito da campanha de Aécio não está claro para seus realizadores.

A esses ruídos vieram somar-se a edição repleta de cortes improdutivos, onde a pança e as mãos do candidato ajudavam a embaralhar a recepção a um discurso já de si embaralhado, dificultando a retenção do que quer que seja. Para piorar, o vetor político que deve orientar a campanha não foi apresentado às claras, em mais uma tibieza conceitual que contrasta com a ideia de liderança: Aécio, acertadamente, pretende deixar o período Lula fora do embate com Dilma, mas fez isso pela metade e, portanto, sem clareza e sem coragem. Se é para adotar essa linha, que seja por inteiro, invocano os êxitos que enxerga no período FHC, reconhecendo que apesar dos muitos erros que vê (e pode nomear) no período Lula, ele foi bom para o Brasil, para então deixar claro porque, na sua opinião, Dilma malbaratou o legado recebido – mas não, ficou num nhe nhe nhem indireto, sem pegada.

O primeiro programa de Aécio foi confuso e não gerou memória: depois de assisti-lo, mesmo o simpatizante não teria o que reproduzir. O toque fajuto ficou por conta do colírio aplicado nos olhos de todos os participantes, por certo para simular o brilho de uma emoção que, definitivamente, o discurso não teria como suscitar.

PT – Se Aécio pouco encarou o eleitor, Dilma não o fez em momento nenhum. Tudo se passou como se ela precisasse ser apresentada de forma indireta. Foi uma chancela surpreendente, mas realista, à evidência de que ela não possui luz própria, mesmo depois de ocupar a presidência por quatro anos. Para piorar as coisas, ficou a cargo de um Lula carrancudo encarar o eleitor, com o que se insiste contraproducentemente na relação assimétrica criador-criatura.

Possuindo o maior intervalo de tempo, a campanha o desperdicou com uma entrevista artificial, entremeada com um clip fraquinho e um jornalismo fajuto, onde até uma inverossímel Dilma dona-de-casa-como-qualquer-outra  foi improvisada – constrangedor.

O enquadramento de Lula com dentes arreganhados só não foi pior do que o conteúdo da sua saudação à memória de Eduardo Campos, uma apropriação claramente eleitoreira: uma presumida relação pai-filho com o político desaparecido (que não a pode contestar), e um sequestro no mínimo deselegante das últimas palavras do morto sobre o futuro, matéria de que trata a eleição e sobre a qual Eduardo tinha, por definição, uma concepção alternativa, outra, apartada da defendida pela candidata que Lula apóia.

PSC –  O candidato pastor apresentou seu trivial menu conservador de forma não menos trivial.

PSOL – Levando em conta as limitações materiais e de tempo, Luciana Genro cumpriu o papel esperado, embora com base num texto desleixado, sem conceito, onde o pouco tempo disponível permitiu até mesmo a inclusão de um chavão inócuo, quando não prejudicial: “conto com você” (e no primeiro dia!) – francamente.

PV – A rica e sólida biografia política do candidato Eduardo Jorge foi mal apresentada, com textos diferentes em audio e video impondo tarefa dupla ao eleitor e, no caso dos textos em video, as cores impuseram entraves intransponíveis à leitura. Muito ruim.

MARINA PODE GANHAR

Carlos Novaes

agosto de 2014

O projeto do PSB era Eduardo Campos, sem plano B. Todavia, o censo de realidade, a habilidade e a generosidade de Campos não permitiram que o tamanho político de Marina deixasse de receber a iluminação devida e, por isso, no curso dos últimos meses, a imagem que se projetou no pano de fundo da paisagem eleitoral foi a de uma dupla, ainda que protagonizada por ele. Assim, ante o desaparecimento brutal de Campos, Marina está na posição em que sempre esteve: mais do que vice, ela sempre foi uma alternativa. Essa solução se impõe antes de qualquer cálculo ou estratégia política, ela resulta da própria situação, da própria realidade, e é assim que ela aflora na cabeça de todos. Fossem outras as circunstâncias, os recalcitrantes da cúpula do PSB seriam motivo de escárnio por não enxergarem o óbvio: o PSB não tem escolha, a alternativa é Marina. As escolhas só se colocam à partir desse ponto de largada, vale dizer, o embate entre o virtuoso e o vicioso da política, especialmente da política eleitoral, não poderá condicionar a opção Marina, só tendo lugar uma vez que se tenha reconhecido esse marco incontornável.

O apoio dos adultos da família de Eduardo Campos tem peso – e eles favorecem Marina. Tem peso em razão do lugar que, felizmente, os afetos ainda desempenham na política; e favorecem Marina não para garantir-lhe a vaga, mas para que ela possa exercer com proveito público a condição de cabeça de chapa, que já é sua, num arranjo de forças e interesses políticos que não foi armado sob a sua liderança. Contra Marina estão aqueles que, adversários entre si, vêem o PSB como instrumento de interesses que só podem se realizar em condição subalterna, como linha auxiliar de um dos dois blocos de força em que a política brasileira se divide improdutivamente: PT e PSDB. Manda-chuvas nacionais do PSB preferem alinhamento com o PT; em São Paulo e Minas há quem se arrume melhor com o PSDB. Eles não enxergam o que Eduardo Campos viu com clareza: além de esgotada até mesmo como ferramenta fisiológica, uma política de acomodação como a que caracteriza o paquiderme PMDB não permitiria construir nada além do mesmo.

O apoio dos que querem transformação será decisivo – mas só favorecerá Marina se ela não se deixar amarrar pelas idéias velhas, se ela não aceitar a escolha entre dilemas superados, e se ela demonstrar ter entendido que a dimensão espiritual das preferências humanas é ela mesma uma preferência. O problema não é esquerda ou direita; a escolha não está entre estado ou mercado; o bem não está senão nas relações que pudermos estabelecer entre nós mesmos na ação política. O problema é a desigualdade; a escolha é entre política e negócio; o bem está em relações políticas que só podem ser alcançadas se as amarras da representação profissional forem rompidas.

Mais ainda do que em 2010, Marina pode despertar uma onda pela transformação. Marina pode ganhar – até mesmo se o instinto de preservação do PT vier a empurrá-lo para uma troca atabalhoada na cabeça da chapa.

FHC e Gleisi – há polêmica nisso?

Carlos Novaes, março de 2014

Além da clareza com que exibem suas próprias limitações para a análise da situação política, não há nada que se aproveite nos artigos de Fernando Henrique Cardoso e Gleisi Hoffmann em exibição no UOL. Em seu disparate e em sua nota cômica comuns, os artigos servem de aperitivo salobro aos pratos indigestos que nos serão servidos à farta nessa campanha eleitoral de 2014.

O ponto alto é o disparate comum entre as duas forças que os articulistas representam: a ideia de que possam haver “questões fundamentais” a unir a “nossa nação”. O que é fundamental desune, sempre, precisamente por ser fundamental, e não há nada mais transformador do que a busca e o empenho pelo que é fundamental.

Ao darem as costas a verdade política tão básica em favor do conforto propiciado pelo convencionalismo (atitude típica de quem “já chegou lá”), essas duas figuras emblemáticas do velho  expressam como meta o que o Brasil precisa deixar para trás: a busca de um modelo em que todos ganham, sempre que por ganhar se entenda manter inalterada ou melhorar a própria condição na pirâmide da riqueza e do mando, qualquer que seja a posição ocupada nela: como se sabe há tempos, alguém tem de perder. Mas como pretender tal descortino de um ex-presidente da República que chegou ao posto precisamente porque, sem ter se comprometido com a feição transformadora da política, se credenciou (pelo que escreveu e fez), entre os que teriam de perder, como “referencial de equilíbrio e estabilidade do debate nacional”? E o que esperar de uma aspirante à presidência da mesma República (Gleisi é inábil a ponto de sempre deixar evidente que vem vociferando sobretudo para se credenciar junto aos seus, sonhando em preencher o vácuo geracional do PT) que serve a um governo que se julga imune à fúria das ruas porque não a mereceria “depois de tanto ter feito por essa gente” e tem, como chefe a quem teme, ninguém menos que Lula, que se jacta de que sob seu mando os banqueiros ganharam dinheiro como nunca — embora ele próprio tenha chegado à presidência como símbolo (suposto, diga-se) de uma transformação tão necessária quanto mal representada por ele?

A nota cômica é o modo como ambos cospem e continuam a comer no prato cuspido: ele porque pretende levar o leitor a ter esperanças numa “classe política” de que se serviu e que, só agora, reconhece como o sustentáculo fisiológico do estado de coisas malsão que se quer superar; ela porque depois de apontar a cusparada do pseudo adversário, completa o “raciocínio” cuspindo ela mesma, para em seguida assumir ares solenes na defesa do Congresso, mostrando-se afetada com o  “achincalhe” ao prato duplamente cuspido em que continua comendo. Porta dos Fundos ficou no chinelo.

A TRAVESSIA DE GENOINO

Carlos Novaes, novembro de 2013

Duas das muitas contribuições dessa segunda metade do julgamento do mensalão (falta a primeira, a do PSDB) foram chamar a atenção para a desumanidade de nossas cadeias e enterrar a bobagem de que decisão judicial se cumpre e não se discute. A tudo se discute e, acima de todos, um dos casos. Genoino mobiliza. Nenhum outro dos condenados no processo suscitou ou motiva discussão sobre a justiça da sua respectiva condenação, mas o caso Genoino nos interroga, nos provoca, requer que falemos. Lê-se nas variadas plataformas de mídia toda sorte de opinião acerca dessa queda – há abordagens sociológicas, políticas, jurídicas, filosóficas e, até, psicológicas. Há análise, há ultraje e há ressentimento – sobretudo ressentimento. Fala-se com azedume de suas caras: haveria não um, mas dois e, mesmo,  três ou quatro Genoinos. Fiquemos atentos, porque estamos nos reconhecendo.

Muitos são os apelos do mundo e, ao contrário de homens como Dirceu e Delúbio, que não se dispersam em dúvidas hamletianas, a maioria de nós, homens comuns, traz dentro do peito não um, mas muitos eus. Decidir qual dos chamados seguir é quase sempre uma luta. Estamos revirando Genoino porque o sabemos um de nós – estamos é nos explicando, falando sobretudo de nós mesmos, de nossa dificuldade para por em ordem idéias, emoções e sentimento de justiça diante de situação tão perturbadoramente familiar – não falo das escolhas de Genoino, falo do que vemos de atormentador nessas escolhas. 

Afinal, por mais de 30 anos (30 anos!), essa figura incomum marcou com sua prática política até adversários, até aqueles de nós avessos ao seu partido. Arriscou a vida contra a ditadura paisano-militar, foi emparedado e torturado por ela e, uma vez liberto, lutou pela democracia – sempre falando, às vezes ouvindo, não raro revendo posições a céu aberto. Mesmo para quem tinha clareza do lento e contínuo navegar do PT em direção ao desastre, a voz dissonante de Genoino varava a treva como um sinal de que ainda havia alguém na gávea.

Apenas a inclinação cômoda pela desesperança na esfera política (afinal, ter esperança implica alguma atitude) explica que muitos prefiram vilipendiar essa memória (que também é sua), tratando Genoino ora como um dissimulado que, finalmente, teria se revelado, ora como um aparatinik de alma stalinista – na verdade, foi bem ao contrário, pois o processo de burocratização e oligarquização do PT (que nada deve ao fervor “socialista” da insânia stalinista, mas antes responde às ambições materiais em uma sociedade periférica desigual) emparedou Genoino pela segunda vez e, então, ele cometeu seu grande erro político: não aceitou, ou não entendeu (nesse foro, que sei eu?) a extensão e a profundidade da derrota que sofria naquele triunfo eleitoral de 2002.

Ao receber a presidência formal do PT sem condições de exerce-la de fato, numa altura em que a férrea liga Lula-Dirceu não poderia senão distribuir para o truco as cartas marcadas de um baralho manjado, Genoino sonhou que jogava xadrez e poderia dar uma de peão em lance de espera. Um erro grave, gravíssimo, se considerarmos que eram muitos os que, mesmo então, ainda o tinham como referência política – mas não um crime. Se as circunstâncias havidas no transcurso do mensalão deixam claro que nosso personagem não poderia deixar de saber pelo menos parte do que se passava, tampouco a memória do que ele foi deixa dúvida de que não vinham dele nem o conceber, nem o gerir e muito menos o negociar a partilha das sujeiras destapadas (estado de coisas que só não é crível para quem não tem ideia de como as decisões são tomadas na cúpula do petismo). Sendo assim, ele não poderia ter sido condenado como os demais e, muito menos, como se membro da quadrilha fosse.

Mesmo emparedado pelo desfavor inevitável da opinião pública e pela dureza não de todo impertinente de um judiciário caolho, Genoino não buscou se livrar empurrando os demais para a fogueira, nem assumindo a parte que lhe cabia nos descaminhos havidos, cometendo, neste último caso, mais um erro. A singularidade dessa situação complexa condenou-o à solidão do esbravejar em via pública, cenário que convida ao patético. Mas olhadas com o mínimo de humanidade, mesmo as atribulações desencontradas por que passa sua saúde nos informam da autenticidade do drama: ao invés do perfil inquebrantável que os cínicos costumam exibir na adversidade, vivida como parte do jogo em que estão para o que der e vier (sobretudo der), Genoino apresenta fraquezas, sofrimentos e perturbações típicas de um Fausto que malbaratou sua merecida reputação.

É hora de cumprir a sentença. Que ele o faça refletindo sobre os erros, sem ânimo de desforra e, sobretudo, sem a determinação ruinosa de a tudo abandonar. Que Genoino encontre forças para voltar à cena pública reencontrado com sua memória, dando a todo aquele que dela partilhou, e ainda preserva em si ao menos a nostalgia de alguma decência, a oportunidade de dizer: muito obrigado.