ACABOU!

Carlos Novaes, 30 de agosto de 2021

Com +++ acréscimos na seção Fica o Registro, em 31/08 (13:08h e 18:32h) e em 01/9, às 20:40h

Para quem ainda teimava em achar que havia algum caminho para o governo de Bolsonaro, as movimentações havidas ontem e hoje entre os donos do dinheiro deixam claro que acabou. Os manifestos da Fiesp/Febraban e do Agronegócio indicam até uma competição pelo desembarque: a primeira articulação titubeou e deu tempo ao “concorrente” de se arrumar em campo e assumir essa duvidosa vanguarda no abandono do navio. Interessante observar que ao negociar para adiar o manifesto negociado pelo presidente da Fiesp, Lira mostrou que o Centrão já perdeu o timing da conjuntura: os maiorais do empresariado já entenderam que não adianta dar espaço para Bolsonaro manobrar — o que há é um movimento a exigir a rendição definitiva dele.

Não é que não vai haver golpe. Disso já sabíamos desde o ano passado, apesar de todo o alarido da mídia convencional e de seus colunistas, a prever o golpe a cada linha. Os recuos incessantes do besta vêm ofertando evidências sucessivas contra os que ainda temiam que ele saísse das quatro linhas. Exatamente ao contrário do que previam os alarmistas, ao invés de avançar, o golpismo vem sendo atropelado no curso da semana, e quem precisa de trégua é Bolsonaro (nem os PMilícias vão botar a cara).

O que já não vai haver é governo de Bolsonaro. Os donos do dinheiro entenderam que os blefes golpistas atrapalham os negócios. Bolsonaro virou um jegue coxo (com todo respeito pelos jegues).

O 7 de setembro da besta está desmoralizado de saída, por mais gente que venha a se aglomerar. Ademais, tudo indica que haverá contingente equivalente (ou maior) a se manifestar contra Bolsonaro no mesmo dia 7, especialmente em SP. Como quer que venha a se dar empiricamente, esta comemoração da independência será o evento de abertura da campanha eleitoral de 2022 porque chancelará a condição irremediavelmente minoritária do besta: ao soldar sua relação com o Centrão e, ao mesmo tempo, responder aos devaneios golpistas da sua base, Bolsonaro se afastou duplamente do que é necessário para fazer maioria eleitoral no Brasil: ser antissistema e pela democracia. Ou seja, o que é bom para o Centrão e para o bolsonarismo não é bom para o Brasil e a moda da próxima estação será afastar-se de ambos. Nessa frente não vão faltar oportunistas!

Fica o Registro:

[31/08 – 13:08h] – Em discurso proferido esta manhã em Uberlância (MG), Bolsonaro não fez ataques a instituições ou autoridades, mas manteve o registro cínico que marca suas intervenções ao insistir em insinuações sobre as manifestações em seu favor em 7 de setembro, dizendo: “As oportunidades aparecem. Nunca outra oportunidade para o povo brasileiro foi tão importante ou será importante quanto esse nosso próximo 7 de Setembro”. O contraste entre o silêncio contra as facções adversárias (rabo entre as pernas) e o enunciado malicioso sobre o dia 7 (fanfarronice verbal) pode ser interpretado de muitas maneiras — não vai faltar quem veja nisso a genialidade que muitos atribuem a este imbecil. Mas essa variação é irrelevante, pois o fundamento básico desse contraste é fácil de localizar: Bolsonaro sempre se conduziu na vida com a psicologia febril do garimpeiro, de apostar na boa sorte de uma oportunidade decisiva, na qual o resultado almejado sorri para quem persiste. As amarras institucionais que o Estado de Direito Autoritário contrapõe ao seu sonho ditatorial são encaradas por ele como o barro tenaz a ser vencido para chegar à pedra preciosa. Em face das evidências de que ainda dessa vez o barro venceu, o besta vem cedendo, mas não pode desvencilhar-se de todo do desejo e, assim, volta a explicitar a fantasia de quem, apesar de tudo, sonha com o milagre de que a pedra rebrilhe. E o Brasil a dançar nessa loucura…

Observe, leitor, como o contraste que venho explorando entre fanfarronice verbal e rabo entre as pernas escancara a dubiedade insanável da situação de Bolsonaro: o rabo entre as pernas corresponde, em última instância, à obediência ao Centrão, ao establishment; a fanfarronice verbal diz respeito exclusivamente à sua autoritária minoria bestificada. Dessa perspectiva, Bolsonaro, ao devanear com a solda entre facciosismo e ditadura, se faz um aleijão a encarnar em si mesmo o fato de que nem as facções, nem mais autoritarismo são alternativa para a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário. A única saída para o Brasil é cerrar esforços contra a desigualdade na perspectiva de um Estado de Direito Democrático.

[18:32h] – Há aqui, na Folha de S.Paulo, uma análise da movimentação do empresariado que traz conhecimento empírico utilíssimo, mas deixa passar o principal. O artigo mostra os bastidores da articulação entre os empresários, o que é relevante conhecer, embora não decisivo. Entretanto, o sentido do artigo é mostrar que a força da política profissional (governo+Lira — ou seja, a força das facções estatais de situação) desarranjou o ímpeto inicial do movimento, que já era tíbio. Ora, o empresariado nunca foi de dar demonstrações antigovernamentais coesas, e, muito menos, firmes. Lembremo-nos de que no golpe contra Dilma o chamado Mercado foi o último a aderir (eles não queriam o impeachment, não por apego à democracia, mas porque entendiam, com razão, que o golpe atrapalharia os negócios). No movimento atual, o que importa salientar não é a tibieza, mas o ineditismo de uma insatisfação que, de tão generalizada, ganhou a forma rara de um manifesto. Por mais que a força das facções contrárias os faça recuar na cena aberta, o recado foi dado, a batata está assando, e não há nada que Bolsonaro possa fazer para enfiar a fumaça de volta na chaminé.

[01/9, às 20:40h] — Vimos aqui, em maio de 2020, que os blefes de Bolsonaro o levaram a uma situação insustentável precisamente porque não havia um calendário eleitoral para o qual dirigir as emoções suscitadas naquela altura. Agora, embora a eleição de 2022 ainda esteja longe, a dinâmica da conjuntura levou a essa antecipação inédita, sendo que nessa dinâmica frenética a candidatura de Lula joga um papel central, pois, em razão dos fatos havidos em 2018, o ex-metalúrgico faz contraponto total e perfeito ao desastre governamental protagonizado pelo ex-tenente. Como Lula não pode escapar do papel de nome do sistema (afinal, ele é a figura mais vistosa do jogo das facções — vem daí já terem começado a dizer que ele “pacificará o país”…), e Bolsonaro mantém suas fantasias ditatoriais, o besta acaba empurrado a alimentar o delírio em torno da farsa de que ele é o nome antissistema (com Centrão a tiracolo…). Vem daí ele ter declarado hoje que “com flores não se ganha guerra não, pessoal. Quando se fala em armamento, quem quer a paz, se prepare para a guerra” — é mero jogo para inflar a plateia do dia 7 com gente oriunda da minoria já convertida. O problema é que depois do dia 7, vem o dia 8, que será seguido pelos dias terríveis que a situação da economia está a prenunciar.

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